quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

REPORTAGEM-CONTO: "O capítulo 2 da Vida de José"



Convivendo com o HIV: por trás da porta há muito mais do que nossa vã imaginação pode alcançar. Essa entrevista nos leva a refletir sobre os mistérios do organismo e de nossa capacidade mental também

Não foi ontem que o conhecemos. Foi nessa mesma época do ano passado, quando estampamos na capa do Saúde sua foto com a manchete “HIV Soropositivo e saudável”, em 2 de dezembro de 2011. Por isso vamos chamar essa edição de “Capítulo 2 da Vida de José”. Mesmo abraçando o HIV desde o primeiro momento, contou pra família, para o pessoal do prédio, para as pessoas da rua, deu entrevistas à mídia, José também encara de frente os preconceitos e não tem medo nem de ficar doente, tampouco de morrer.
Marcamos uma nova conversa para a manhã desta terça-feira (27), pois gostaria de saber o que mudou na vida de um soropositivo para HIV durante um ano, após sair na capa deste caderno.
Com a mochila nas costas e a máquina fotográfica a tiracolo às 9h30 da manhã ensolarada, devo confessar me ver numa cena de filme de suspense ao entrar livremente pelo Palácio dos Arcos e pegar o elevador até o 3º andar, dar de cara com um corredor escuro cujos sensores demoraram em me reconhecer. Quando localizei a porta 309, bati. Ouço passos e José abre a porta, só de bermuda. O impacto da falta da camisa se dissipou como num sopro ao dar o primeiro passo para o apartamento e encontrar dois idosos, um em cada sofá, fazendo o “L” da sala, assistindo a um canal religioso. Dei bom dia aos seus pais apertando as mãos e fitando olhares de quem busca entender o que estava acontecendo, enquanto José avançou para a mesa e puxou uma cadeira para mim, sentando-se ao lado. Tirei da mochila o notebook e fui tentando quebrar o gelo, acomodando o computador em frente a uma bíblia e um vaso de flores alaranjadas, dividindo espaço ainda com uma caixa de luvas descartáveis, alguns papéis, Mimi - o gato que adorou o PC e ficou adornando-o enquanto conversávamos. José passou a mão num vidrinho e passou a me explicar que tinha recebido na semana passada essas gotinhas homeopáticas de um frei capuchinho que conversou em Curitiba, durante um congresso. “Aqui diz para tomar cinco gotas, mas ele me falou para tomar 15. Eu disse: vou ficar forte como um touro”, riu.

Quem é José?
Dono de um passado repleto de adrenalina, ex-estudante de Jornalismo e de Letras, ex-militante do PC do B, José Leoclécio Almeida, 56 acumula na bagagem viagens ao ter percorrido todas as capitais (com exceção de Roraima) e muitas cidades brasileiras. Conheceu gente de todo tipo e há alguns anos voltou a Pato Branco, para descobrir doenças que mudaram seu percurso de vida.
Doador de sangue, foi num desses gestos de voluntariado que os exames acusaram hepatite C e o vírus HIV positivo. Para curar a primeira, ele tomou por seis meses injeções que custaram R$ 1.515 e mais quatros comprimidos de manhã, a tarde e a noite. Já a segunda, faz parte de um programa diário de combate munido de qualidade de vida, que inclui caminhadas, noites bem dormidas, nada de álcool ou exageros, refeições regradas e nas horas certas. Ser cuidador de idosos marca a rotina - a começar pelos pais Gitana Teixeira de Almeida, 76 e Olmiro Rodrigues de Almeida, 82, ela com Alzheimer, ele com Diabetes. E José, soropositivo, cuida deles o tempo todo. A informação mais importante: ele não tem a Aids manifestada, apenas é portador do vírus. Por isso, ainda não toma coquetel algum de medicamentos.

Em busca da vida saudável
No mesmo dia, José descobriu o HIV e a hepatite, com o fígado já 40% deteriorado. “Fiz o tratamento bem certinho, eu bebia um pouco, mas o dr.Volpato me falou para ir na psicóloga, fazer fisioterapia, não andar com quem bebe, nem ir em festas ou formaturas, para após seis meses ele me dar o medicamento. Eu disse: sua obrigação é me dar o medicamento, meu dever eu sei. A partir do momento em que eu tomar o primeiro medicamento eu não uso mais álcool e tudo. É só dizer não e obrigado e acabou. Vou a formaturas, ando com quem carrega pinga junto, vou aos bares, em todo e qualquer lugar. No inicio é ruim não tanto pela falta que te faz, mas pela insistência das pessoas que te conhecem: senta aqui, toma uma que te pago, e ficam insistindo. Daí tem que que dizer, “não bebo mais, obrigado e pronto”, afirmou incisivamente.
Para conservar a saúde, José pratica exercício físico todos os dias, até quando chove, começa às 6h da manhã pelas ruas, de trevo a trevo. E depois, próximo de casa, na academia ao ar livre, atrás da prefeitura. “Acho engraçado, estou descendo no elevador e vêm as mulheres com os saltos altos, quando vê que está chovendo já reclamam. Eu ponho uma bermuda e ao invés de por um tênis melhor para não molhar, coloco chinelo de dedo e vou brincando como criança. São pessoas que não se aceitam: quando chove, reclamam porque chove, frio porque está frio, calor, porque tá calor. Fique um mês no semiárido do Nordeste, caminhe uns 15km com uma lata de água e você já vai gostar de chuva”, aconselha conscientemente.

Estudante, não errante
Nas andanças por estudo e militância, ele começou por Palmas no curso de Letras que fez por um período só. Depois, por causa do jornalismo, passou pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) de Cuiabá, por Porto velho, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba, entre outras que não se lembra. Tudo isso para dizer que José galga os mesmos sonhos que todos nós, dia a dia. “Não conclui nenhum curso, sinto só economicamente, onde vejo o problema, senão não, porque estudar, eu continuo estudando. Ler, continuo lendo. Sou meio cego de tanto ler, uso num olho grau cinco e no outro quase seis. De seis em seis meses vou ao oftalmologista e tenho que trocar o grau do óculos”, confessa.
Ele é muito bem informado. Pelo argumento de autoridade de sua própria vida, José aprecia ler textos científicos. Assim ele consegue explicar todas as transformações que o HIV pode fazer ao organismo, consegue se preparar se for ficar doente, e até a ajudar os soropositivos que conhece pela vida. “Tem 140 soropositivos vivos em Pato Branco, 24 no centro, quase todos profissionais liberais e comerciários e não querem mostrar a cara. Acha que tem prejuízo de perder emprego. Está empregado, descobriu que tem? O empresário manda embora, ele pode ser profissional autônomo ou ter seu próprio negócio, porque entra com uma ação e vai ganhar, porque é contra lei. A lei não permite fazer teste para entrar na empresa”, mencionou.

Acompanhamento
Todos os meses, vai ao Centro de Orientação e Apoio Sorológico (Coas). “O (médico) Cândia é gente fina e me disse: José, esteja bom ou ruim, todo mês quero te ver aqui”, então vou uma ou duas vezes por mês e de quatro em quatro meses faço coleta de sangue para ver como está”. Com isso, ele sempre sabe na ponta da língua os índices de resultados de seus exames e comemora a manutenção da imunidade. “Esse mês pensei que teria que tomar o coquetel, porque o pai ficou uma semana no hospital e quando o trouxe para casa, fiquei uma outra semana com a mãe. Eu não comia direito, não pude fazer exercício físico, não dormia direito”. Mas sua imunidade não baixou.
“Eu pensei que cuidar de idoso era uma das coisas mais fáceis do mundo, mas é muito difícil. Não é. Se você fala alto está gritando, se fala baixo não está dando atenção, pensam que você não respondeu. Se está na cozinha fazendo almoço te chamam, você vem e quando pergunta o que eles querem não se lembram mais, quer que dê atenção”, exemplifica.
Sobre o dia que descobriu ser portador do vírus, José se recorda que só chegou em casa e disse: “tenho HIV. Amanha vou no Coas”. Ele tentou por muito tempo responder à pergunta da família e de todos que sabiam da notícia: “todo dia, mais de 20 pessoas me faziam essa pergunta: sabe de quem você pegou? Eu não dormia mais e não tinha maneira de descobrir. Sabe de uma coisa? O estresse abala o organismo. O meu dever é não transmitir para os outros, então não tem importância saber ao certo como eu peguei”, resume.
Questionado sobre como nota a atitude das pessoas frente à Aids, o soropositivo percebe que não olham como uma doença mortal. Apesar de fatal, está banalizada.
“Eu não sei se descobri cedo ou o que, mas a única coisa que eu faço para não tomar medicamento é a qualidade de vida, que aumentou em 80%, porque durmo cedo, não fico mais em acampamentos por três dias fazendo festa. Levo a mãe e o pai pra cama por volta de 20h15, desligo a TV para ficar em silêncio, depois ligo mais um pouco pra ver o jornal, desligo a televisão, se passar de certa hora e eu não dormi fico pensando, mas só em coisa boa. Sou analfabeto digital por opção, mas deletar eu sei dizer, o pensamento negativo apago na hora. Só penso nas coisas boas na vida. É o que fazemos com prazer, faço tudo com prazer, mesmo que agora faz dois anos que não posso ir acampar, primeiro ficava três dias, depois dois, agora não vou mais nem no domingo, fico quase 24 horas, só saio de casa para fazer os negócios quando tem alguém que fique com eles. Para mim pessoalmente não é bom, para qualquer pessoa não é, mas faço isso com prazer. Eles nunca me abandonaram. Que jovem que alguma vez não faz alguma sujeira ou coisa errada? E agora que eles precisam, como vou abandonar? Tenho que me privar do que mais gosto e pronto”, reitera, determinando sua vida.

AIDS, sua atitude faz a diferença
Esse é o slogan, mas José nota que os jovens se conhecem e, mesmo tendo preservativo, no calor da juventude por vezes acabam deixando de lado. “Vai outra vez, outra vez, outra vez, um vai pegando confiança no outro, mas você não sabe se o outro é sincero na relação ou não. Um desses pega e quando vai saber já está com o vírus”.
Acompanhando tudo que sai sobre Aids, mesmo nunca tomando medicamento, José sabe do problema da adesão ao tratamento, que é sério. “Tem que pegar e suportar aquele efeito adverso até o medicamento se adaptar ao organismo. Senão, precisa procurar o médico para mudar o tratamento. Outra coisa importante, não pode queimar etapas, começa tomar um comprimido mais fraco e se adaptando aquele e tomando certinho pode tomar por sete anos só aquele, para depois passar para um mais forte. Tomando certo aquele, até chegar no último pode viver 34 anos tomando o coquetel certo”.
José é daqueles que vive preparado para não ficar doente. Mas se precisar está mais preparado ainda, pois prepara sua cabeça para tal. “Eu às vezes viajo, sei que vou para lugares tão lindos que nunca vi na vida, por mais que tenha viajado. Lugares tão bonitos e lindos. Às vezes ou para lugares tão feios e difíceis de sair, tanta gente horrível. Primeiro acordava suado, hoje se eu ver coisa feia não tem problema. Tenho fé, sou católico apostólico romano praticante. Se estou certo ou errado, também não vem ao caso, preciso acreditar em algo superior, não é possível que conheçamos só dez metros da infinidade da terra. Não é possível que não tenha outras pessoas inteligentes em outros lugares. Tenho que acreditar em uma pessoa superior”.
(Fotos Daiana Pasquim / Arte-final Lucas Piaceski)

Reprodução de Legendas 
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O cenário da capa de 2011 felizmente persiste: HIV soropositivo e saudável

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“Tem 140 soropositivos vivos em Pato Branco, 24 no centro, quase todos profissionais liberais e comerciários e não querem mostrar a cara”, informou José



“Esse mês pensei que teria que tomar o coquetel, porque o pai ficou uma semana no hospital e quando o trouxe para casa, fiquei uma outra semana com a mãe. Eu não comia direito, não pude fazer exercício físico, não dormia direito”. Mas sua imunidade não baixou.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CRÔNICA - Esforço Formiguinha




Pé ante pé, quase sonâmbula, Henriqueta arrasta-se para o banheiro empurrada pelo toque do despertador. Mais uma manhã urgia e clamava por trabalho. Acomoda-se sentada e começa a olhar para os quadrados brancos delimitados pelo rejunte cinza escuro. Nota então que deles, de quando em quando, movimentavam-se pequenos pontinhos pretos que ora escondiam-se, ora seguiam em fileiras. “Formigas”, pensou.
O sono ainda presente conteve o impulso de matá-las e, enquanto liberava seu organismo do armazém da noite, passou a observar o comportamento desses insetos que vivem em comunidade. A súbita apreciação deu-lhe a certeza sobre o quanto seres humanos e formigas são parecidos. Do seu esforço, à sua pequenez. Da sua persistência, à sua vitória.
Sim, Henriqueta se deu conta que esse levantar diário seguido da ida para o trabalho tentando lançar suas novas ideias, o hábito de abrir a janela e tentar enxergar diferente, é nada mais que um esforço formiguinha. Os insetos pequeninos andavam em filas, quase que rastreando uns aos outros, pelo cheiro, pela atitude, pelo mero costume de se seguirem? Questionou. E o livre arbítrio, em que piso quadrado se perdeu? Quantas assim se desgarraram pelo caminho, morreram na empreitada, foram abandonadas pelo grupo sem ao menos uma palavra de carinho, sem um tempo para dizer “adeus”?
O que nós seres humanos fazemos uns com os outros e com nós mesmos durante o ano? Quando a gente afunda a cabeça nos rejuntes acinzentados e arrastamos nossos músculos e neurônios para um trabalho puxado, quando ligamos o piloto automático e percorremos as trilhas que nos dizem que temos que viver. Essa vontade de fazer diferente esperando um elogio é um esforço formiguinha. Não passa muito da dedicação para construir seu próprio ninho. As formigas-humanas focam suas rainhas e buscam reconhecimento, um lugar ao sol. As formigas-rainhas são seu chefe, seus clientes e fornecedores, o maior salário, a gente suporta a busca e tudo que nela implica porque queremos chegar na casa confortável, na viagem desejada, no crescimento salutar da família, na felicidade que uma formiga, sequer, talvez nunca venha a experimentar.
“Fora dos desenhos animados, será que uma formiga é feliz?”, divagou a operária. O erro em que decorrem os humanos é o de querer fazer isso, sozinhos. A história da comunidade da formiga nós não seguimos muito não. Quanto mais intitulamos “comunidades”, menos as praticamos. Por isso, quem nunca se sentiu carregando o mundo nas costas? E nunca nem foi reconhecido por esse esforço hercúleo? - filosofou.

“Eu sou uma formiga”, sussurrou Henriqueta, coçando os olhos. Já de frente ao espelho, viu agora subindo as paredes, como que num retrovisor, a carreira de negras patas. Seria uma infestação ou uma forma sensível e matinal de perceber que todo esforço exige algum custo e que nem sempre você vai conseguir ver a formiga Rainha, ou se tornar uma. Aliás, Henriqueta desde então criou uma teoria: Há pessoas que nascem “formigas rainha”, outras, eternas operárias. Os seres humanos são mesmo assim? “Não seja tola, Henriqueta, são apenas formigas invadindo seu banheiro”.
Trilhou do banheiro ao quarto, vestiu-se e foi, sozinha em seu carro, para o labor que a inebriava. Ela queria crescer na vida. Lá na cozinha, no entorno do pote de açúcar, os pontos pretos buscavam uma forma de furar o bloqueio. Era uma questão de vida ou morte.
– 25 de janeiro de 2013, 19h01

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

JORNALISMO LITERÁRIO: Aura para afastar os espinhos do estresse




Tem um espinho incomodando. Estará nas costas da blusa? Do sapato? Na perna esquerda? Na cabeça? Isso é estar estressada – no feminino, porque as mulheres, como eu, têm um ímã para puxar tarefas e dar conta de todas, porém, com algum custo. Ter muitas coisas a fazer gera falta de paciência, dores caminhando pelo corpo e explosões de sentimentos. O corpo dói, o metabolismo clama, o cérebro ferve. O estresse é silencioso. Pode esquecer que você vai perceber quando ele chegou e se instalou. Quando menos se der conta vai estar irritada, sentindo a face esquentar e respondendo a tudo rapidamente como uma forma de se defender. É a autodefesa para ainda mais atividades a serem cumpridas, mas se você já está dando tanto? O sangue, a vida, suas melhores ideias, o maior vigor de sua juventude, tudo para o trabalho, para o investimento no novo projeto, para a empresa em que você está ligada. Não é só isso. Você aceita porque, no fundo, a aposta é em você mesma.

Vem das cavernas
Pesquisando sobre estresse, aprendi que se caracteriza como “um mecanismo fisiológico do organismo sem o qual nós, nem os outros animais, teríamos sobrevivido. Se nosso antepassado das cavernas não reagisse imediatamente, ao se deparar com uma fera faminta, não teria deixado descendentes. Nós existimos porque nossos ancestrais se estressavam, isto é, liberavam uma série de mediadores químicos (o mais popular é a adrenalina), que provocavam reações fisiológicas para que, diante do perigo, enfrentassem a fera ou fugissem”, explica a médica psiquiatra Alexandrina Meleiro, que trabalha no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
A cada final de expediente você se arrasta para casa e procura um dos pequenos antídotos diários antiestresse: seu filho, sua casa, seu sofá, um livro, um filme, uma revista, uma música, seu hobbie, um carinho, sua cama. Mas o despertador logo toca. É outro dia. As forças vêm do além e você se levanta da cama para mais um dia de batalhas.
No suor ao longo do dia, tem como um flash a lembrança de sua casa e o cheirinho do seu lar com o calorzinho do abraço de seu filho e de seu amor invadindo seu corpo como um arauto. A mente se turbina e novas ideias nascem para concluir a tarefa da hora.

Mulher maravilha
Conceber um novo e grande projeto sobre estresse é cruzar a ponte enfrentando tempestades e se sentir uma super heroína, uma “mulher maravilha” ao final. Foi essa a sensação que tive quando concluímos o Caderno Especial 60 Anos de Pato Branco que você lê junto a esta edição. Três dias se debruçando, de intenso trabalho, totalmente concentrada na história de nossa cidade por, no mínimo, 12 horas por dia. Na matemática, 36 horas, de 72: só pensando em Pato Branco. Mais que isso, nos educadores e crianças que vão ler essas 32 páginas na escola e aprender muito sobre porque somos hoje assim, poderão projetar o futuro; em ter contribuído para eternizar uma parte da história pato-branquense, nesse suplemento tão bonito que me deu orgulho em editar. Agarrada à amiga de longa data e colega de mesa Marcilei Rossi, demos longas braçadas no mar de informações e pudemos entregar tudo nas mãos do meu querido Lucas Piaceski para aplicar a arte-final.
No jornal é assim – semelhante ao supermercado ou comércio. Uma seleção de palavras especiais que colhemos do jardim de nosso conhecimento durante todo o ano, mas do qual nascem espécies diferenciadas a cada fim de ano, porque cada produto (ou serviço) que se faz tem uma aura muito especial. Fim de ano o trabalho aumenta, estressa. Mas depois que a gráfica conclui a parte dela percebemos o quanto valeu a pena cada “esquentada de cabeça”.

Resiliência
Leio revistas sempre, assim como boa parte da população. É líquido e certo, as edições de final de ano trazem sempre reportagens sobre o assunto, o antídoto do estresse. Estamos todos acostumados em esperar aquela formula básica de ver sobre “paciência e resiliência”. Vem com a proposta de ser “fórmula mágica”, isso sim. “Preciosas lições para aumentar sua capacidade de se levantar e sacudir a poeira” está na Claudia de novembro, página 180. Durante o texto, outro psicanalista, o Jacob Pinheiro Goldberg, autor de O Direito no Divã (Saraiva) dá algumas lições sobre como se tornar mais resiliente e mais forte – quando a vida exigir.
Na física, a resiliência é a capacidade de certos corpos de retornar à forma original, após sofrer tensão e se deformar. Por empréstimo, é o nome que se dá à nossa capacidade de superar traumas e dores e resgatar o prazer pela vida. Quanto maior, mais chances teremos de não nos abater com os solavancos e os tombos.
As dicas trazidas no livro de Goldberg têm relação direta com o autoconhecimento: enxergar que o sofrimento e o cansaço também nos fortalece; perceber que a rotina é fundamental numa crise – e isso inclui encontrar os amigos, ir a festas e cumprir com suas tarefas do dia a dia; tentar sorrir, mesmo sem vontade e viver intensamente o luto e a tristeza, quando for o caso, pois é melhor curtir o nesse momento do que deixar a dor invadir as esferas da vida; adicionar arte à sua rotina; projetar o futuro; e se doar para melhorar a vida dos outros, pois essa generosidade vai melhorar a sua também.

Espinhos e flores entrelaçadas
Ao concluir as últimas linhas do dia, foi abrindo a porta do carro, em frente ao jornal, que percebi o quanto as costas ardiam. Olhei para o lado e vi uma árvore de espinhos entrelaçada com uma de hibiscos ostentando flores vermelho vivo se nutrindo da chuva que havia caído à tarde. Espinhos e flores entrelaçadas. “Se as flores são tão lindas, que triste a vida desses espinhos”, pensei. Mas reparando melhor, vi que a maior sombra era a da árvore de espinhos. Ela era que tinha protegido o carro o dia todo. Percebi que na vida também é assim. É preciso saber enxergar a fase mais nebulosa como uma oportunidade de fortalecimento. Era tarde. Voltei ao carro e peguei a câmera. Comecei a clicar espinhos. Esses que você vê na capa desta edição. Entre um ajuste e outro, um clique e outro, fui “desestressando” e ficando feliz por ter uma boa foto para mais uma edição. Afinal, outro dia estava pra nascer.



“Comecei a clicar espinhos. Esses que você vê na capa desta edição. Entre um ajuste e outro, um clique e outro, fui “desestressando” e ficando feliz por ter uma boa foto para mais uma edição. Afinal, outro dia estava pra nascer”.



O que o estresse faz no organismo

Pequenos problemas do dia a dia, em longo prazo, acabam criando uma situação de estresse. É fundamental estar alerta para os sinais que o corpo registra

- O estresse é uma defesa natural que nos ajuda a sobreviver, mas a cronicidade do estímulo estressante acarreta consequências danosas ao nosso organismo.
- Embora a tendência do indivíduo seja elaborar estratégias para resolvê-las, muitas vezes, ele vai se adaptando às exigências do chefe intransigente, à situação econômica difícil, aos revezes do dia a dia.
- Se não conseguir criar essas estratégias, seu organismo não irá reagir convenientemente diante dos problemas.
- Seu corpo dará sinais de cansaço que podem afetar os sistemas imunológico, endócrino, nervoso e o comportamento do dia a dia.
- A continuidade dessa situação afeta a pessoa, exaurindo suas forças e ela cai num estado de exaustão, de estresse propriamente dito.

- Caso não consiga reverter o processo, as consequências não tardarão a surgir:
- aumento da pressão arterial
- crises de angina que podem levar ao infarto
- dores musculares
- dores nas costas
- dores na região cervical
- alterações de pele


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Das linhas do jornal para as veias da educação

Os primeiros acordes anunciam que a voz de Norah Jones viria suave em seguida com "Young Blood". Assim toca meu despertador às 5h40 da manhã, todas as quartas e quintas-feiras, há quase três meses, nos quais venho cultivando uma relação muito saudável e de intenso aprendizado com crianças e adolescentes dos 11 aos 15 anos: são minhas turmas do 6º ao 9º ano, do Ensino Fundamental 1.  Tenho cinco turmas para chamar de “minha”. Quando me graduei em Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa, esse era o desejo mais intenso: poder dar a minha cara para as aulas, sendo professora regente – coisa que não se consegue como estagiária.
As aulas da manhã começam às 7h30, mas o detalhe é que leciono em Francisco Beltrão e, residindo em Pato Branco, tenho que sair de casa no máximo 6h20 da manhã, para viajar e lecionar com segurança. Não dá para negar que o madrugar seja um choque ao intelecto e, ao conciliar essa rotina com o exercício jornalístico, um desafio, pois a dedicação às matérias se intensificou como editora de suplementos do Diário do Sudoeste, casa onde estou há exatos sete anos e meio. Contudo, é um cenário muito compensador, pois a cada dia tenho a sensação de, em sala de aula ou na redação, colocar um tijolinho para melhorar o mundo.
Ser escritora era um desejo da adolescência: 13 anos. Foi nessa idade que as palavras me fisgaram de vez e comecei a guinar para a profissão de “jornalista”, já que lendo biografias, descobri que a maioria dos escritores trabalhava como tal, tendo papéis, linhas, tinta, divulgação de notícias e ensinamentos como instrumento de trabalho. Passados mais de dez anos eis que, como jornalista, percebi que incutia nas matérias o desejo de construir um mundo melhor, buscando formas e caminhos “educadamente” possíveis para isso. O exercício de jornalismo literário vive em mim quase como uma necessidade de alimentação do espírito. Então surgiu o curso de Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Após mais quatro anos e meio de estudos veio a graduação, o que me abriu as portas para começar a lecionar neste ano de 2012, no Colégio Águia de Francisco Beltrão.
É numa pasta rosa e branca com diversos compartimentos que acondiciono as dezenas de textos que os alunos produzem a cada quarta e quintas-feiras. Em casa, após fazer uma leitura minuciosa em cada linha, vem a sensação de satisfação ao ver nas folhas uma evolução em coerência, coesão e abordagem de tema que impulsiono em sala de aula.
Se fosse para dar uma geral no vício escolar da garotada de hoje, poderia arriscar dizer ser a pouca preocupação com a “caligrafia”. Na era da tecnologia e dos botões, o maior esforço de um professor talvez seja decifrar os hieróglifos que nascem das mãos de alguns alunos. Mas é inegável que essa Geração Y, para quem lecionamos, agora dispõe de uma riqueza de ideias e recursos que deixaria nossos textos escolares num estado perdedor em termos de comparação.
Como “professora-jornalista”, ensino produção textual e linguística (gramática) também. Como “jornalista-professora”, a experiência na educação vem nos últimos três anos junto aos editores-mirins do projeto Diarinho Cultural do Sudoeste do Paraná, alunos dos 4º e 5º anos da rede municipal de 13 municípios do Sudoeste.
Se a comunicação é um instrumento em comum entre professores e jornalistas, é inegável que essas áreas se conversam, por isso, acredito que essa ponte, por vezes um tanto desvairada, tem dado certo.
Mesmo sendo íntima das palavras, para quem ama a profissão é quase indefinível encontrar um termo que bem transporte a sensação de ser chamada de “professora”. Por isso é preciso fechar esse texto registrando algumas impressões desde o momento em que a coordenadora pedagógica Franciele me apresentou aos alunos. Caminhos que percorrem a técnica e a relação social.
Com o 6º ano, a palavra “respeito” teve que ser escrita no quadro por algumas aulas, mas hoje existe um acordo de cavalheiros de erguer a mão para falar e, no papel, soltar “o verbo” e a imaginação. Com os dois 7º anos, seara de criatividade, ganho surpresas positivas de produção a cada semana, onde a sincronização de conteúdos das turmas dá aos alunos iguais oportunidades de aprendizado, o que rendeu textos, vídeos, apresentações musicais e até de um teatro na Mostra de Talentos do Águia, no final desse mês de outubro. Com o 8º ano, é a união da turma e o carinho de uns para com os outros que dão a maior lição de convivência e de conhecimento. Meu pedido: “deem mais balões” para crescermos ainda mais em criatividade textual. E com o 9º ano, no alto de seus 13 e 14 anos, há um misto de personalidades caracterizado já com algumas aspirações de futuro. Não posso deixar de registrar uma experiência relâmpago como professora substituta dando uma primeira aula de quarta-feira para o segundão do Médio. Com a mesma característica estrutural do 9º ano – sala numerosa (leia-se 25 a 30 alunos), o professor fica num palco – vi nos rostos desses jovens a natural evolução das séries escolares, temperado com um interesse muito peculiar de participação. Quando o sinal bateu, saí da sala querendo extrair deles muito mais, a partir das sementes venho selecionando para plantar e compartilhar.
De folha em folha preenchida com “caligrafia”, é inegável que os dias em casa nunca mais foram os mesmos, pois os fins de semana são sempre povoados de textos para corrigir, intercalados com o plantão na redação do jornal. Se o trabalho não fosse minha vida, daria pra dizer que quase não sobra um bom tempo para viver.