sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

REPORTAGEM: Do papel ao som das letras






daipasquim@hotmail.com, em 22 de fevereiro de 2013.

Se diante de uma folha em branco de papel tudo pode ser criado, diante da página de um livro ou caderno preenchido com caligrafias e fontes variadas pode haver uma confusão danada. Alguns distúrbios de aprendizagem, como a dislexia, reflete em pessoas inteligentíssimas, com amplo domínio verbal, que na hora da leitura podem trocar letras, como “p e b”, “f e v”, entre outras. Para casos assim está indicado um novo método, o Panlexia, estudado em agosto de 2012 pela terapeuta ocupacional em Pato Branco, Norma Dall’Igna, especialista em neuropediatria e neuropsicologia. O curso com duração de uma semana teve a presença de neurologistas, neuropediatras, psicopedagogos, pedagogos e outros profissionais. O método já vem sendo aplicado nas escolas da rede municipal de Curitiba para a reeducação dessas crianças.

Dislexia é o distúrbio em que a criança, apesar de ter acesso à escolarização regular, falha em adquirir as habilidades de leitura, escrita e soletração que seriam esperadas de acordo com seu desempenho intelectual. Mas como o desempenho intelectual não pode ser rebaixado, trabalha-se na associação do som, que é a ferramenta de trabalho da terapeuta ocupacional no método Panlexia: consciência fonológica.
Dados de 2002 da teórica Capovilla, que estuda inclusive o cenário brasileiro, indicam que a dislexia atinge de forma severa cerca de 10% das crianças em idade escolar e de forma leve, em torno de 25%.

Como funciona
Trabalha-se com um caderno de exercícios para dificuldades específicas de linguagem, evoluindo em volumes. Inclusive, o método fônico tem se mostrado muito mais adequado em crianças de ensino regular sem distúrbios na escrita. O trabalho é feito a partir do reconhecimento da discriminação do som. São sessões de 40 minutos, de duas a três vezes por semana, para tratar os distúrbios de linguagem. Quanto à duração do tratamento, vai depender do quanto à criança vai se empenhar.
“Na educação tradicional temos o nome da letra, o P e o B. A consciência fonológica é o som da letra. Não é “p” com “a” que dá pá. É o /p/ (pã) com “a” que dará “pa”. Fica muito mais fácil para a criança se alfabetizar”, ilustra a terapeuta.
O Panlexia traz avaliações quanto à idade da maturação fonológica da criança. “Já peguei várias crianças com quatro ou cinco anos de idade fonológica e quando aplicamos o nível um e dois, ela consegue se igualar a sete ou oito anos de idade fonológica. O salto é muito grande e temos como fazer essas avaliações, mensurando o quanto ela consegue progredir em um ano. É um período em que ela consegue crescer de dois a três anos obtendo êxito, através da consciência fonológica. A gente faz com que a criança reconheça o som das letras e note, por si só, o erro dela. Jamais vou falar o erro dela. Ela mesma vai perceber, porque ela passa a ter noção do som”, explanou. Quando a criança cresce em idade fonológica o resultado só pode ser melhora na escola.

Discriminação
O perfil do aluno disléxico (leia destaque) normalmente acarreta algumas outras complicações sociais. “Noto a autoestima em baixa, ele não tem muitos amigos, são crianças inseguras, isoladas, que preferem não brincar e ficam muito mais tempo no computador com joguinhos, do que jogar futebol ou ir à educação física. São inseguras e mais tímidas. Às vezes, em decorrência, a criança chega a ter sinais de hiperatividade”.
Por essas e outras, Norma sempre envia às escolas um relatório com estratégias para a sala de aula em assistência ao aluno disléxico.
Nesse sentido, a pedagoga Franciele Lorenzi, atuando há cinco anos numa escola particular em Francisco Beltrão, acredita que “a escola tem papel fundamental na identificação dos primeiros sinais de transtornos da aprendizagem. Nas reuniões pedagógicas e Conselhos de Classe, orientamos os professores que qualquer observação que considerar importante em sala de aula deverá ser repassada para a Orientação da escola”.

Pais transpondo dificuldades

A pedagoga Franciele menciona ainda que a reação dos pais são as mais diversas. “Tem pais que se escondem atrás do "problema" do filho, outros que nos trazem laudo médico preocupadíssimos com a condição do filho e como a escola pode auxiliar no tratamento e temos também os que não aceitam a situação. Para muitos pais (apesar de que as dificuldades de aprendizagem sempre existiram) o assunto é novo e causa receio: meu filho com problema. E então, voltamos ao ponto dos cuidados com o que é dificuldade (pela metodologia, por algum problema emocional) e o que é um transtorno (dislexia, discalculia...) e como podemos ajudar o aluno. De extrema importância a família, a escola e um profissional habilitado estar fazendo o acompanhamento do aluno”, defendeu.
Quando os casos chegam à terapeuta, muitas vezes acaba se percebendo que a conduta equivocada pode estar nos próprios pais. “Um problema grande são os adultos, que muitas vezes acreditam que o aluno não se empenha, que é preguiçoso, mas às vezes é o contrário. Ele se esforça muito e obtém pouco resultado e como os adultos continuam dizendo, ele acaba que não se esforça mais, pois acredita que não vale a pena”, problematizou Norma Dall’Igna.


Idade para reeducação
Não há idade limite para aprender o método, mesmo adolescentes ou adultos. Norma menciona que pode ocorrer a reeducação e o desenvolvimento da consciência fonológica.
“A criança disléxica tem problema da consciência fonológica específica, onde tem muito mais dificuldade em aprender com o método tradicional. Já recebi inúmeros casos onde a criança e o adolescente chegam frustrados e sem vontade de ir para a escola, sem motivação para continuar. São vítimas dessa insistência de pais, mães, professores”.
Muitas vezes esse erro no trato com o disléxico é cometido sem saber que existem métodos próprios para tratar isso. “A pessoa continua lidando nesse jeito, às vezes nem é um erro que queremos cometer. Mas se for diagnosticado e em parceria com o neurologista, dentro da avaliação descritiva e minuciosa para dar o diagnostico e conduzir o tratamento, o método da consciência fonológica vai ajudar muito a pessoa disléxica”.
E o método pode ser usado com crianças em geral que não conseguem se alfabetizar, como as que possuem deficiência mental leve, Síndrome de Down e paralisia cerebral.

O papel da escola
A pedagoga Franciele Lorenzi afirma que “quando identificado um aluno com sinais de possíveis transtornos de aprendizagem a orientação é para dar maior atenção a esse aluno, em seguida entramos em contato com a família. No período contrário da aula regular, trabalhamos com o Projeto Tarefa na Escola, utilizando metodologias diferenciadas para que possam auxiliar nas dificuldades, ressaltando as habilidades do aluno, seja na oralidade ou na área que apresentar”, explicou, acrescentando que “o número de alunos reduzido nas salas de aula do ensino fundamental nos permite um acompanhamento individualizado atendendo as necessidades de cada aluno levando em consideração que todo ser humano difere em sua capacidade para dominar diferentes âmbitos: alguns possuem mais facilidade em matemática, outros em língua portuguesa, enfim. O ideal é que a escola permita à família entender que o problema do aluno é conhecido e que será feito de tudo para ajudá-lo, que se de uma atenção especial ao aluno encorajando-o a pedir ajuda e destacar sempre os pontos positivos para "superar" as limitações”, finalizou Franciele.

“Os adultos muitas vezes acreditam que o aluno não se empenha, mas às vezes é o contrário. Ele se esforça muito e obtém pouco resultado”, problematizou Norma Dall’Igna


Características do aluno disléxico

Na leitura
- lê pior que os colegas
- não lê por vontade própria
- comete muitos erros na leitura e palavras
- frequentemente se perde na leitura
- omite ou substitui as palavras
- não compreende aquilo eu lê
- lê lentamente com muitas dificuldades
- muitas vezes não lê a primeira letra de uma palavra u frase.

Na ortografia
- inverte as letras de todas as maneiras
- não escreve ponto e acentos
- não percebe a ausência e uma letra em palavra que escreveu
- parece não ouvir os sons como eles são, exemplo “rado” por “rato”.
- não sabe se é uma palavra ou se são duas (A mamãe)

Na escrita
- esquece como escreve uma letra
- muda a altura da letra
- deixa espaço entre as letras e uma palavra
- pega o lápis pesado e com pouco controle
- cansa quando esquece e reclama que a mão dói.
- tem dificuldade em se organizar no espaço da página
- mistura caixa alta com cursiva.

Comportamento
- diz que odeia ler e escrever
- não se interessa por leitura e escrita
- é preguiçoso
- demonstra interesse e faz observações inteligentes desde que não precise ler e escrever
- os adultos muitas vezes acreditam que ele não se empenha.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

RESENHA - "Nem sempre amar é tudo", de Salma Ferraz



Assim como o amor nos envolve e enlaça todos os pensamentos, as entregas do corpo e da alma, a obra “Nem sempre amar é tudo”, de Salma Ferraz, nos arrebata para as 75 páginas, lidas deliciosamente em uma ou duas horas, nas quais se perpassa uma vida assim como a eternidade do amor, que é infinito enquanto dura, já diria Fernando Pessoa, de quem a autora é muito perita.
A crítica literária Salma Ferraz tem um dom pessoal e inequívoco para os contos. Professora universitária que perpassa a mente de muitos jovens, tem construído uma reputação contista cada vez mais sólida e agora, mexendo com o amor, não há como não se comover e envolver.
Quantas vezes ouvimos falar por aí que “amar é tudo”. Salma emenda “nem sempre” e dispara já na primeira folhada “Quase sempre é nada” frase acompanhada da figura de um cupido, que para a também professora universitária e crítica literária amiga da autora, Christina Ramalho, “atinge diretamente o estômago do romantismo”. Assim desenrolam-se os cinco contos, demarcados por iguais cinco corações no sumário: “Nem sempre amar é tudo”, “Biscoitos”, “Efeito Melancia = Mulheres Frutas”, “Ruhe in Frieden!” e “Valsando enquanto a morte não chega”. 


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

REPORTAGEM-CONTO: "O capítulo 2 da Vida de José"



Convivendo com o HIV: por trás da porta há muito mais do que nossa vã imaginação pode alcançar. Essa entrevista nos leva a refletir sobre os mistérios do organismo e de nossa capacidade mental também

Não foi ontem que o conhecemos. Foi nessa mesma época do ano passado, quando estampamos na capa do Saúde sua foto com a manchete “HIV Soropositivo e saudável”, em 2 de dezembro de 2011. Por isso vamos chamar essa edição de “Capítulo 2 da Vida de José”. Mesmo abraçando o HIV desde o primeiro momento, contou pra família, para o pessoal do prédio, para as pessoas da rua, deu entrevistas à mídia, José também encara de frente os preconceitos e não tem medo nem de ficar doente, tampouco de morrer.
Marcamos uma nova conversa para a manhã desta terça-feira (27), pois gostaria de saber o que mudou na vida de um soropositivo para HIV durante um ano, após sair na capa deste caderno.
Com a mochila nas costas e a máquina fotográfica a tiracolo às 9h30 da manhã ensolarada, devo confessar me ver numa cena de filme de suspense ao entrar livremente pelo Palácio dos Arcos e pegar o elevador até o 3º andar, dar de cara com um corredor escuro cujos sensores demoraram em me reconhecer. Quando localizei a porta 309, bati. Ouço passos e José abre a porta, só de bermuda. O impacto da falta da camisa se dissipou como num sopro ao dar o primeiro passo para o apartamento e encontrar dois idosos, um em cada sofá, fazendo o “L” da sala, assistindo a um canal religioso. Dei bom dia aos seus pais apertando as mãos e fitando olhares de quem busca entender o que estava acontecendo, enquanto José avançou para a mesa e puxou uma cadeira para mim, sentando-se ao lado. Tirei da mochila o notebook e fui tentando quebrar o gelo, acomodando o computador em frente a uma bíblia e um vaso de flores alaranjadas, dividindo espaço ainda com uma caixa de luvas descartáveis, alguns papéis, Mimi - o gato que adorou o PC e ficou adornando-o enquanto conversávamos. José passou a mão num vidrinho e passou a me explicar que tinha recebido na semana passada essas gotinhas homeopáticas de um frei capuchinho que conversou em Curitiba, durante um congresso. “Aqui diz para tomar cinco gotas, mas ele me falou para tomar 15. Eu disse: vou ficar forte como um touro”, riu.

Quem é José?
Dono de um passado repleto de adrenalina, ex-estudante de Jornalismo e de Letras, ex-militante do PC do B, José Leoclécio Almeida, 56 acumula na bagagem viagens ao ter percorrido todas as capitais (com exceção de Roraima) e muitas cidades brasileiras. Conheceu gente de todo tipo e há alguns anos voltou a Pato Branco, para descobrir doenças que mudaram seu percurso de vida.
Doador de sangue, foi num desses gestos de voluntariado que os exames acusaram hepatite C e o vírus HIV positivo. Para curar a primeira, ele tomou por seis meses injeções que custaram R$ 1.515 e mais quatros comprimidos de manhã, a tarde e a noite. Já a segunda, faz parte de um programa diário de combate munido de qualidade de vida, que inclui caminhadas, noites bem dormidas, nada de álcool ou exageros, refeições regradas e nas horas certas. Ser cuidador de idosos marca a rotina - a começar pelos pais Gitana Teixeira de Almeida, 76 e Olmiro Rodrigues de Almeida, 82, ela com Alzheimer, ele com Diabetes. E José, soropositivo, cuida deles o tempo todo. A informação mais importante: ele não tem a Aids manifestada, apenas é portador do vírus. Por isso, ainda não toma coquetel algum de medicamentos.

Em busca da vida saudável
No mesmo dia, José descobriu o HIV e a hepatite, com o fígado já 40% deteriorado. “Fiz o tratamento bem certinho, eu bebia um pouco, mas o dr.Volpato me falou para ir na psicóloga, fazer fisioterapia, não andar com quem bebe, nem ir em festas ou formaturas, para após seis meses ele me dar o medicamento. Eu disse: sua obrigação é me dar o medicamento, meu dever eu sei. A partir do momento em que eu tomar o primeiro medicamento eu não uso mais álcool e tudo. É só dizer não e obrigado e acabou. Vou a formaturas, ando com quem carrega pinga junto, vou aos bares, em todo e qualquer lugar. No inicio é ruim não tanto pela falta que te faz, mas pela insistência das pessoas que te conhecem: senta aqui, toma uma que te pago, e ficam insistindo. Daí tem que que dizer, “não bebo mais, obrigado e pronto”, afirmou incisivamente.
Para conservar a saúde, José pratica exercício físico todos os dias, até quando chove, começa às 6h da manhã pelas ruas, de trevo a trevo. E depois, próximo de casa, na academia ao ar livre, atrás da prefeitura. “Acho engraçado, estou descendo no elevador e vêm as mulheres com os saltos altos, quando vê que está chovendo já reclamam. Eu ponho uma bermuda e ao invés de por um tênis melhor para não molhar, coloco chinelo de dedo e vou brincando como criança. São pessoas que não se aceitam: quando chove, reclamam porque chove, frio porque está frio, calor, porque tá calor. Fique um mês no semiárido do Nordeste, caminhe uns 15km com uma lata de água e você já vai gostar de chuva”, aconselha conscientemente.

Estudante, não errante
Nas andanças por estudo e militância, ele começou por Palmas no curso de Letras que fez por um período só. Depois, por causa do jornalismo, passou pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) de Cuiabá, por Porto velho, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba, entre outras que não se lembra. Tudo isso para dizer que José galga os mesmos sonhos que todos nós, dia a dia. “Não conclui nenhum curso, sinto só economicamente, onde vejo o problema, senão não, porque estudar, eu continuo estudando. Ler, continuo lendo. Sou meio cego de tanto ler, uso num olho grau cinco e no outro quase seis. De seis em seis meses vou ao oftalmologista e tenho que trocar o grau do óculos”, confessa.
Ele é muito bem informado. Pelo argumento de autoridade de sua própria vida, José aprecia ler textos científicos. Assim ele consegue explicar todas as transformações que o HIV pode fazer ao organismo, consegue se preparar se for ficar doente, e até a ajudar os soropositivos que conhece pela vida. “Tem 140 soropositivos vivos em Pato Branco, 24 no centro, quase todos profissionais liberais e comerciários e não querem mostrar a cara. Acha que tem prejuízo de perder emprego. Está empregado, descobriu que tem? O empresário manda embora, ele pode ser profissional autônomo ou ter seu próprio negócio, porque entra com uma ação e vai ganhar, porque é contra lei. A lei não permite fazer teste para entrar na empresa”, mencionou.

Acompanhamento
Todos os meses, vai ao Centro de Orientação e Apoio Sorológico (Coas). “O (médico) Cândia é gente fina e me disse: José, esteja bom ou ruim, todo mês quero te ver aqui”, então vou uma ou duas vezes por mês e de quatro em quatro meses faço coleta de sangue para ver como está”. Com isso, ele sempre sabe na ponta da língua os índices de resultados de seus exames e comemora a manutenção da imunidade. “Esse mês pensei que teria que tomar o coquetel, porque o pai ficou uma semana no hospital e quando o trouxe para casa, fiquei uma outra semana com a mãe. Eu não comia direito, não pude fazer exercício físico, não dormia direito”. Mas sua imunidade não baixou.
“Eu pensei que cuidar de idoso era uma das coisas mais fáceis do mundo, mas é muito difícil. Não é. Se você fala alto está gritando, se fala baixo não está dando atenção, pensam que você não respondeu. Se está na cozinha fazendo almoço te chamam, você vem e quando pergunta o que eles querem não se lembram mais, quer que dê atenção”, exemplifica.
Sobre o dia que descobriu ser portador do vírus, José se recorda que só chegou em casa e disse: “tenho HIV. Amanha vou no Coas”. Ele tentou por muito tempo responder à pergunta da família e de todos que sabiam da notícia: “todo dia, mais de 20 pessoas me faziam essa pergunta: sabe de quem você pegou? Eu não dormia mais e não tinha maneira de descobrir. Sabe de uma coisa? O estresse abala o organismo. O meu dever é não transmitir para os outros, então não tem importância saber ao certo como eu peguei”, resume.
Questionado sobre como nota a atitude das pessoas frente à Aids, o soropositivo percebe que não olham como uma doença mortal. Apesar de fatal, está banalizada.
“Eu não sei se descobri cedo ou o que, mas a única coisa que eu faço para não tomar medicamento é a qualidade de vida, que aumentou em 80%, porque durmo cedo, não fico mais em acampamentos por três dias fazendo festa. Levo a mãe e o pai pra cama por volta de 20h15, desligo a TV para ficar em silêncio, depois ligo mais um pouco pra ver o jornal, desligo a televisão, se passar de certa hora e eu não dormi fico pensando, mas só em coisa boa. Sou analfabeto digital por opção, mas deletar eu sei dizer, o pensamento negativo apago na hora. Só penso nas coisas boas na vida. É o que fazemos com prazer, faço tudo com prazer, mesmo que agora faz dois anos que não posso ir acampar, primeiro ficava três dias, depois dois, agora não vou mais nem no domingo, fico quase 24 horas, só saio de casa para fazer os negócios quando tem alguém que fique com eles. Para mim pessoalmente não é bom, para qualquer pessoa não é, mas faço isso com prazer. Eles nunca me abandonaram. Que jovem que alguma vez não faz alguma sujeira ou coisa errada? E agora que eles precisam, como vou abandonar? Tenho que me privar do que mais gosto e pronto”, reitera, determinando sua vida.

AIDS, sua atitude faz a diferença
Esse é o slogan, mas José nota que os jovens se conhecem e, mesmo tendo preservativo, no calor da juventude por vezes acabam deixando de lado. “Vai outra vez, outra vez, outra vez, um vai pegando confiança no outro, mas você não sabe se o outro é sincero na relação ou não. Um desses pega e quando vai saber já está com o vírus”.
Acompanhando tudo que sai sobre Aids, mesmo nunca tomando medicamento, José sabe do problema da adesão ao tratamento, que é sério. “Tem que pegar e suportar aquele efeito adverso até o medicamento se adaptar ao organismo. Senão, precisa procurar o médico para mudar o tratamento. Outra coisa importante, não pode queimar etapas, começa tomar um comprimido mais fraco e se adaptando aquele e tomando certinho pode tomar por sete anos só aquele, para depois passar para um mais forte. Tomando certo aquele, até chegar no último pode viver 34 anos tomando o coquetel certo”.
José é daqueles que vive preparado para não ficar doente. Mas se precisar está mais preparado ainda, pois prepara sua cabeça para tal. “Eu às vezes viajo, sei que vou para lugares tão lindos que nunca vi na vida, por mais que tenha viajado. Lugares tão bonitos e lindos. Às vezes ou para lugares tão feios e difíceis de sair, tanta gente horrível. Primeiro acordava suado, hoje se eu ver coisa feia não tem problema. Tenho fé, sou católico apostólico romano praticante. Se estou certo ou errado, também não vem ao caso, preciso acreditar em algo superior, não é possível que conheçamos só dez metros da infinidade da terra. Não é possível que não tenha outras pessoas inteligentes em outros lugares. Tenho que acreditar em uma pessoa superior”.
(Fotos Daiana Pasquim / Arte-final Lucas Piaceski)

Reprodução de Legendas 
1
O cenário da capa de 2011 felizmente persiste: HIV soropositivo e saudável

2
“Tem 140 soropositivos vivos em Pato Branco, 24 no centro, quase todos profissionais liberais e comerciários e não querem mostrar a cara”, informou José



“Esse mês pensei que teria que tomar o coquetel, porque o pai ficou uma semana no hospital e quando o trouxe para casa, fiquei uma outra semana com a mãe. Eu não comia direito, não pude fazer exercício físico, não dormia direito”. Mas sua imunidade não baixou.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CRÔNICA - Esforço Formiguinha




Pé ante pé, quase sonâmbula, Henriqueta arrasta-se para o banheiro empurrada pelo toque do despertador. Mais uma manhã urgia e clamava por trabalho. Acomoda-se sentada e começa a olhar para os quadrados brancos delimitados pelo rejunte cinza escuro. Nota então que deles, de quando em quando, movimentavam-se pequenos pontinhos pretos que ora escondiam-se, ora seguiam em fileiras. “Formigas”, pensou.
O sono ainda presente conteve o impulso de matá-las e, enquanto liberava seu organismo do armazém da noite, passou a observar o comportamento desses insetos que vivem em comunidade. A súbita apreciação deu-lhe a certeza sobre o quanto seres humanos e formigas são parecidos. Do seu esforço, à sua pequenez. Da sua persistência, à sua vitória.
Sim, Henriqueta se deu conta que esse levantar diário seguido da ida para o trabalho tentando lançar suas novas ideias, o hábito de abrir a janela e tentar enxergar diferente, é nada mais que um esforço formiguinha. Os insetos pequeninos andavam em filas, quase que rastreando uns aos outros, pelo cheiro, pela atitude, pelo mero costume de se seguirem? Questionou. E o livre arbítrio, em que piso quadrado se perdeu? Quantas assim se desgarraram pelo caminho, morreram na empreitada, foram abandonadas pelo grupo sem ao menos uma palavra de carinho, sem um tempo para dizer “adeus”?
O que nós seres humanos fazemos uns com os outros e com nós mesmos durante o ano? Quando a gente afunda a cabeça nos rejuntes acinzentados e arrastamos nossos músculos e neurônios para um trabalho puxado, quando ligamos o piloto automático e percorremos as trilhas que nos dizem que temos que viver. Essa vontade de fazer diferente esperando um elogio é um esforço formiguinha. Não passa muito da dedicação para construir seu próprio ninho. As formigas-humanas focam suas rainhas e buscam reconhecimento, um lugar ao sol. As formigas-rainhas são seu chefe, seus clientes e fornecedores, o maior salário, a gente suporta a busca e tudo que nela implica porque queremos chegar na casa confortável, na viagem desejada, no crescimento salutar da família, na felicidade que uma formiga, sequer, talvez nunca venha a experimentar.
“Fora dos desenhos animados, será que uma formiga é feliz?”, divagou a operária. O erro em que decorrem os humanos é o de querer fazer isso, sozinhos. A história da comunidade da formiga nós não seguimos muito não. Quanto mais intitulamos “comunidades”, menos as praticamos. Por isso, quem nunca se sentiu carregando o mundo nas costas? E nunca nem foi reconhecido por esse esforço hercúleo? - filosofou.

“Eu sou uma formiga”, sussurrou Henriqueta, coçando os olhos. Já de frente ao espelho, viu agora subindo as paredes, como que num retrovisor, a carreira de negras patas. Seria uma infestação ou uma forma sensível e matinal de perceber que todo esforço exige algum custo e que nem sempre você vai conseguir ver a formiga Rainha, ou se tornar uma. Aliás, Henriqueta desde então criou uma teoria: Há pessoas que nascem “formigas rainha”, outras, eternas operárias. Os seres humanos são mesmo assim? “Não seja tola, Henriqueta, são apenas formigas invadindo seu banheiro”.
Trilhou do banheiro ao quarto, vestiu-se e foi, sozinha em seu carro, para o labor que a inebriava. Ela queria crescer na vida. Lá na cozinha, no entorno do pote de açúcar, os pontos pretos buscavam uma forma de furar o bloqueio. Era uma questão de vida ou morte.
– 25 de janeiro de 2013, 19h01

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

JORNALISMO LITERÁRIO: Aura para afastar os espinhos do estresse




Tem um espinho incomodando. Estará nas costas da blusa? Do sapato? Na perna esquerda? Na cabeça? Isso é estar estressada – no feminino, porque as mulheres, como eu, têm um ímã para puxar tarefas e dar conta de todas, porém, com algum custo. Ter muitas coisas a fazer gera falta de paciência, dores caminhando pelo corpo e explosões de sentimentos. O corpo dói, o metabolismo clama, o cérebro ferve. O estresse é silencioso. Pode esquecer que você vai perceber quando ele chegou e se instalou. Quando menos se der conta vai estar irritada, sentindo a face esquentar e respondendo a tudo rapidamente como uma forma de se defender. É a autodefesa para ainda mais atividades a serem cumpridas, mas se você já está dando tanto? O sangue, a vida, suas melhores ideias, o maior vigor de sua juventude, tudo para o trabalho, para o investimento no novo projeto, para a empresa em que você está ligada. Não é só isso. Você aceita porque, no fundo, a aposta é em você mesma.

Vem das cavernas
Pesquisando sobre estresse, aprendi que se caracteriza como “um mecanismo fisiológico do organismo sem o qual nós, nem os outros animais, teríamos sobrevivido. Se nosso antepassado das cavernas não reagisse imediatamente, ao se deparar com uma fera faminta, não teria deixado descendentes. Nós existimos porque nossos ancestrais se estressavam, isto é, liberavam uma série de mediadores químicos (o mais popular é a adrenalina), que provocavam reações fisiológicas para que, diante do perigo, enfrentassem a fera ou fugissem”, explica a médica psiquiatra Alexandrina Meleiro, que trabalha no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
A cada final de expediente você se arrasta para casa e procura um dos pequenos antídotos diários antiestresse: seu filho, sua casa, seu sofá, um livro, um filme, uma revista, uma música, seu hobbie, um carinho, sua cama. Mas o despertador logo toca. É outro dia. As forças vêm do além e você se levanta da cama para mais um dia de batalhas.
No suor ao longo do dia, tem como um flash a lembrança de sua casa e o cheirinho do seu lar com o calorzinho do abraço de seu filho e de seu amor invadindo seu corpo como um arauto. A mente se turbina e novas ideias nascem para concluir a tarefa da hora.

Mulher maravilha
Conceber um novo e grande projeto sobre estresse é cruzar a ponte enfrentando tempestades e se sentir uma super heroína, uma “mulher maravilha” ao final. Foi essa a sensação que tive quando concluímos o Caderno Especial 60 Anos de Pato Branco que você lê junto a esta edição. Três dias se debruçando, de intenso trabalho, totalmente concentrada na história de nossa cidade por, no mínimo, 12 horas por dia. Na matemática, 36 horas, de 72: só pensando em Pato Branco. Mais que isso, nos educadores e crianças que vão ler essas 32 páginas na escola e aprender muito sobre porque somos hoje assim, poderão projetar o futuro; em ter contribuído para eternizar uma parte da história pato-branquense, nesse suplemento tão bonito que me deu orgulho em editar. Agarrada à amiga de longa data e colega de mesa Marcilei Rossi, demos longas braçadas no mar de informações e pudemos entregar tudo nas mãos do meu querido Lucas Piaceski para aplicar a arte-final.
No jornal é assim – semelhante ao supermercado ou comércio. Uma seleção de palavras especiais que colhemos do jardim de nosso conhecimento durante todo o ano, mas do qual nascem espécies diferenciadas a cada fim de ano, porque cada produto (ou serviço) que se faz tem uma aura muito especial. Fim de ano o trabalho aumenta, estressa. Mas depois que a gráfica conclui a parte dela percebemos o quanto valeu a pena cada “esquentada de cabeça”.

Resiliência
Leio revistas sempre, assim como boa parte da população. É líquido e certo, as edições de final de ano trazem sempre reportagens sobre o assunto, o antídoto do estresse. Estamos todos acostumados em esperar aquela formula básica de ver sobre “paciência e resiliência”. Vem com a proposta de ser “fórmula mágica”, isso sim. “Preciosas lições para aumentar sua capacidade de se levantar e sacudir a poeira” está na Claudia de novembro, página 180. Durante o texto, outro psicanalista, o Jacob Pinheiro Goldberg, autor de O Direito no Divã (Saraiva) dá algumas lições sobre como se tornar mais resiliente e mais forte – quando a vida exigir.
Na física, a resiliência é a capacidade de certos corpos de retornar à forma original, após sofrer tensão e se deformar. Por empréstimo, é o nome que se dá à nossa capacidade de superar traumas e dores e resgatar o prazer pela vida. Quanto maior, mais chances teremos de não nos abater com os solavancos e os tombos.
As dicas trazidas no livro de Goldberg têm relação direta com o autoconhecimento: enxergar que o sofrimento e o cansaço também nos fortalece; perceber que a rotina é fundamental numa crise – e isso inclui encontrar os amigos, ir a festas e cumprir com suas tarefas do dia a dia; tentar sorrir, mesmo sem vontade e viver intensamente o luto e a tristeza, quando for o caso, pois é melhor curtir o nesse momento do que deixar a dor invadir as esferas da vida; adicionar arte à sua rotina; projetar o futuro; e se doar para melhorar a vida dos outros, pois essa generosidade vai melhorar a sua também.

Espinhos e flores entrelaçadas
Ao concluir as últimas linhas do dia, foi abrindo a porta do carro, em frente ao jornal, que percebi o quanto as costas ardiam. Olhei para o lado e vi uma árvore de espinhos entrelaçada com uma de hibiscos ostentando flores vermelho vivo se nutrindo da chuva que havia caído à tarde. Espinhos e flores entrelaçadas. “Se as flores são tão lindas, que triste a vida desses espinhos”, pensei. Mas reparando melhor, vi que a maior sombra era a da árvore de espinhos. Ela era que tinha protegido o carro o dia todo. Percebi que na vida também é assim. É preciso saber enxergar a fase mais nebulosa como uma oportunidade de fortalecimento. Era tarde. Voltei ao carro e peguei a câmera. Comecei a clicar espinhos. Esses que você vê na capa desta edição. Entre um ajuste e outro, um clique e outro, fui “desestressando” e ficando feliz por ter uma boa foto para mais uma edição. Afinal, outro dia estava pra nascer.



“Comecei a clicar espinhos. Esses que você vê na capa desta edição. Entre um ajuste e outro, um clique e outro, fui “desestressando” e ficando feliz por ter uma boa foto para mais uma edição. Afinal, outro dia estava pra nascer”.



O que o estresse faz no organismo

Pequenos problemas do dia a dia, em longo prazo, acabam criando uma situação de estresse. É fundamental estar alerta para os sinais que o corpo registra

- O estresse é uma defesa natural que nos ajuda a sobreviver, mas a cronicidade do estímulo estressante acarreta consequências danosas ao nosso organismo.
- Embora a tendência do indivíduo seja elaborar estratégias para resolvê-las, muitas vezes, ele vai se adaptando às exigências do chefe intransigente, à situação econômica difícil, aos revezes do dia a dia.
- Se não conseguir criar essas estratégias, seu organismo não irá reagir convenientemente diante dos problemas.
- Seu corpo dará sinais de cansaço que podem afetar os sistemas imunológico, endócrino, nervoso e o comportamento do dia a dia.
- A continuidade dessa situação afeta a pessoa, exaurindo suas forças e ela cai num estado de exaustão, de estresse propriamente dito.

- Caso não consiga reverter o processo, as consequências não tardarão a surgir:
- aumento da pressão arterial
- crises de angina que podem levar ao infarto
- dores musculares
- dores nas costas
- dores na região cervical
- alterações de pele