terça-feira, 21 de maio de 2013

Gincana Pedalando é sucesso de público, prêmios e engajamento


Corredores ficaram tomados pelas torcidas e as 380 crianças. Foto: Daiana Pasquim

Grandiosa tarde de 21 de maio de 2013: pelas 380 crianças que compareceram e superlotaram o Auditório do Sesc Pato Branco; pelas 14 bicicletas dadas como prêmio e pela vibração de todos em prol de um objetivo em comum. A Gincana Pedalando, organizada pelo Instituto Carlos Almeida e Interact Club Pato Branco, motivou mais de 40 escolas nos últimos meses, dos municípios de Pato Branco, Bom Sucesso do Sul, Itapejara D'Oeste, Mariópolis, Clevelândia e Renascença.
A revelação dos ganhadores foi nesta tarde, sendo:

1º lugar
Pequeno Príncipe
Pato Branco
213 pontos
2º lugar
Jardim Primavera
Pato Branco
169 pontos
3º lugar
La Salle
Pato Branco
163 pontos
4º lugar
Nereu Ramos
Itapejara do Oeste
161 Pontos

Poder registrar esses momentos como a jornalista responsável pelo projeto Diarinho Cultural do Sudoeste do Paraná e, ao lado da pedagoga Bernardete Penachi, estar à frente de tamanha responsabilidade nos engrandece como ser humano. Obrigada a todas as educadoras e crianças que marcam nossas vidas!

Em breve, todas as fotos no Álbum Gincana Pedalando, no Facebook.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

CONTO-LITERÁRIO: A Colina dos Tomé





O encanto da Colina Verde dos Pássaros

Daiana Pasquim, texto escrito em 7 de outubro de 2009

Uma estrada íngreme e sinuosa, demarcada por pedras em estilo medieval desde o sedutor portão abrem o princípio do território da Colina Verde dos Pássaros. Fica onde se pode chamar de o ponto mais alto do bairro São Roque, de Pato Branco, onde, ao ser comprado pelo casal Rui Afonso Tomé e Beatriz Ana Pozzolo Tomé, em 1983, não era nada mais que ummorro pelado”. Esse, aliás, foi um dos apelidos que o então contador da Palagi recebeu dos colegas de trabalho, acrescido a “O Rui tá louco”, fruto da descrença dos amigos que viam naquele lugar nada mais que um pedaço de terra sem graça. Fundamentado no amor, o casal imprimiu ali muita espiritualidade e hoje a chácara de 68 mil metros quadrados (6.8 hectares) pode ser considerada uma das maiores áreas particulares esverdeadas de Pato Branco.
São mais de cinco mil árvores de cerca de 70 espécies, a maioria frutífera que atraem mais de 60 espécies das mais variadas aves. No local parece existir uma aura, mantida pelo canto ininterrupto de pássaros e pelo ar essencialmente puro. O gramado se estende como um tapete ao redor do casarão construído ao gosto da família, nos anos seguintes a compra. Moram de encantamento há 22 anos. Beatriz e Rui Afonso Tomé tiveram dois filhos: Kelly e Gian Carlo. Juntos, eles construíram o verdadeiro “patrimônio natural”.

Da terra, veio a paixão pelos pássaros. Rui Afonso Tomé dedicou 35 anos de sua vida na maior revenda de máquinas agrícolas existente no perímetro de União da Vitória a Capanema. Contador e financeiro da Palagi, recorda-se com a descontração ganhada ao longo de quase 77 anos de vida, a serem completados no próximo dia 1º de dezembro, queaqui era tudo limpo. Uma terra lavrada com três palmeirinhas e mais nada”.
Há 26 anos, o local era desprovido de energia elétrica e tinha não mais que três residências, mas o faro sentia a bela visão da cidade que poderia se ter. Assim como do sol, da lua e das estrelas.
Das mais de cinco mil espécies arbóreas estimadas estarem hoje no quintal, Rui Afonso Tomé conta que plantou 90% delas somando com as mãos femininas de Beatriz, que deu roupa de orquídeas aos troncos espessos, mas os outros 10% nasceram pelas mãos da natureza, inclusive a dos passarinhos, que levam sementes longe. O nobre senhor aposentado explica duas razões que o levaram a comprar o que ele prefere chamar de “uma colina”: a primeira é de fato a visão da cidade; e a segunda, a espiritualidade e religiosidade sentida no local, analogizando que na Bíblia, os maiores acontecimentos foram vivenciados nas alturas, em morros, montanhas e colinas. Nesse contexto, há mais de duas décadas ele vai à sacada para fortalecer o equilíbrio emocional, a paz interior e uma série de sensações indescritíveis que garante funcionar.
Pássaros e árvores sempre encantaram Rui Afonso Tomé. Ele revela que a paixão se acentuou com seu guru, o escritor Johan Dalgas Frisch, de quem comprou a 1ª edição do livroAves Brasileiras”, autografado a pedido de Rui, em 17 de agosto de 1984. O mesmo título emedição, revisado paraAves brasileiras e os frutos que as atraem” coassinado também pelo filho Christian Dalgas Frisch ocupa um lugar de destaque na mesinha da sala de lareira que vizinha com a televisão onde o ornitófilo apresentou uma pequena parcela das cinco horas de gravação que tem. Em 100% dos lances está registrado o comportamento dos passados dentro da propriedade da família Tomé, nos últimos anos, desde que ele comprou a filmadora. Seu objetivo é editar um DVD. Não para comercializar, mas para presentear. “Temos que propagar e incentivar o pessoal a plantar árvores”, enfatiza, passando a receita da melhor fórmula para atrair pássaros. “A mensagem que tenho é a minha natureza. O resto vem por si”.
Pela lente da filmadora sobre o tripé de madeira do antigo telescópio usado há 40 anos para olhar as estrelas e a lua, o ornitófilo Rui Afonso Tomé registra “o lanche dos pássaros”. O segredo para se aproximar sem espantar as aves é a discrição e o silêncio, além da relação amistosa que as aves parecem reconhecer na alma de seu apreciador. “Alguns ficam mansos. Costumo ficar concentrado a uma distância de 7 a 8 metros”. O que mais lhe impressiona no comportamento dos pássaros e a capacidade de espalhar a notícia sobre onde tem comida. Ondeum casal, logo vem a família inteira, atraído pelo canto singular de cada espécie. “Eles espalham a notícia em poucos minutos sobre onde tem comida”.
São pássaros como tucano, pica-pau, beija-flor de cinco variedades, sabiá, trinca-feno (ave rara que está no local sempre), rolinha branca, juriti, pombinha carijó, tico-tico, coleirinha, canarinho, guaxe, curucaca (maior ave da região), quero-quero, tizio, anu preto, anu branco, João de barro, bem-te-vi e o que ele classificou como a ave principal e mais rara, “sua Beatriz”. Espirituoso, Rui conta que a ave mais bela é o tucano, sendo que a mais linda e rara está em extinção: Beatriz.
Com a declaração de amor profundo à mulher, Rui Tomé relaciona a lista da flora mais produtiva que tem na Colina Verde dos Pássaros: jambolão, canafístula, ingá-feijão, ipê roxo, caroba, ipê amarelo, dedaleiro, pitanga, cerejeira, curupiá, uvaia, capororoca, vacum, goiaba do mato, canela guaicá, imbuia branca, aroeira, banana de mico, erva mate nativa, espinheira santa, entra dezenas de outras, contando que mais de 70% das espécies do quintal ainda não identificou.
A filmagem de algumas aves demandou um processo de produção. No quintal, ele tem também o que chama de “restaurante dos pássaros”. Relata que 80% de tudo que filmou foi conseguido num de ameixa, a fruta de inverno com bastante massa, cuja cor atrai os pássaros. As tão aguardadas imagens do gavião e dos periquitos Rui Tomé guarda como prêmios. A concentração dura até duas horas, em momentos classificados por ele como de ligação direta entre “a natureza, as criaturas e o criador”.
Rui Afonso Tomé nasceu em Nova Roma (RS), na época Antonio Prado, há apenas três quilômetros de sua alma gêmea Beatriz, nascida em Nova Treviso (RS). Formou-se em Direito, mas não chegou a exercer a advocacia. Também lecionou, em idos tempos, Matemática Comercial e Financeira. Até que veio a paixão pela natureza. “Eu sempre fui de me concentrar mais na parte interior e espiritual. Sempre falo que acho que tenho um antepassado que é eremita. Posso ficar sozinho até uma semana. Tudo depende do pensamento. Se você tem um interior com bastante coisa boa e se compenetrar, assim como vou filmar, às vezes fico duas ou três horas esperando o ângulo do passarinho e, nesse meio tempo, fazia integração da natureza, com as criaturas, os passarinhos, o seu Rui e o criador. A gente fica elaborando essas coisas e começa voar junto, trazendo paz interior”.
No Ocidente, Aristóteles foi um dos primeiros a escrever sobre as aves em sua obra “Sobre a história dos animais”, continuada em Roma, mais de três séculos depois, por Plínio, o Velho. Além de ser motivo de estudo, as aves foram inspiração para muita produção literária. No Brasil, o escritor Fischer enumera Tom Jobim, Villa-Lobos e Jorge Amado como alguns que afirmaram publicamente que suas obras foram grandemente inspiradas pelo canto dos pássaros.
Para Rui Afonso Tomé, o cantar dos pássaros é uma dádiva de encanto. “O sabiá, quando está na nidificação (fazendo o ninho), é o primeiro da manhã que canta e o último da tarde”.
Assim, construiu na vida condições para escrever seu próprio capítulo da felicidade tão procurada. “Estar embaixo de uma árvore que você plantou, plantou para atrair passarinho e ele está aí, o que se quer mais? Eu ponho asas”. Sua explicação é entrar no contexto, se definindo de forma transcendental: “sou quase um alado”.



“Sempre falo que acho que tenho um antepassado que é eremita. (...) Sou quase um alado, define-se o ortitófilo Rui Afonso Tomé








Curiosidades:

 Levanta-se normalmente às 6h30, faz o café para sua Beatriz e depois vai “tratar os bichos”. São as galinhas da Beatriz e as angolistas do Sr. Rui, cachorros, gatos e o “restaurante dos passarinhos”.

“O Tucano é o mais lindo. A ave que eu mais gosto é uma ave em extinção. Espécie igual eu não iria encontrar nunca mais”.

“Eu sou da parte mais rude, plantar árvores, grama, ir atrás dos passarinhos, mas o embelezamento é com ela. Nas orquídeas tem os dedinhos dela”.

“Quem tem um lote com um espaço meio grande, deveria ter uma árvore atrás. Poucos têm. Isso atrai passarinho. Plante uma árvore que atraia, por exemplo, jaracatiá, o mamãozinho do mato, que dá no verão, mas o que vê passarinho... quem tem um espaço maior, plante ameixa de inverno e, maior ainda, o abacate. Por incrível que pareça, as duas árvores que mais atraem passarinhos são o abacate e a ameixa de inverno”.

“Na redondeza me dizem: seu Rui, estão aparecendo uns passarinhos que nunca vi antes, não sei de onde estão vindo. Eu digo: eu sei”.

RESENHA LITERÁRIA: Gaibéus




Dramaticismo e retórica de Redol: Gaibéus[i]
Daiana Pasquim[ii]


Gaibéus, de Alves Redol é uma narrativa cadenciada, árdua, que dá ao leitor pouco tempo para respirar. A sensação combina com a realidade vivida pelos personagens coletivos da trama, inspirados no real. Por isso, Gaibéus é o romance neorrealista[iii] que marcou para sempre a história da literatura portuguesa. Publicado em 1939, exige recorrer em vários trechos ao dicionário, em especial para compreender os termos usados pelos trabalhadores no arrozal em seu fazer diário.
Antonio Alves Redol[iv], em Maio de 1966 escreve a reedição do livro. Com a sobriedade quase três décadas após sua produção juvenil, se questiona: “Será que tenho a mesma mão?” Essa nova introdução ao livro é também uma autobiografia que aproxima o leitor da sensibilidade do autor:

“Propus-me com Gaibéus criar um romance antiassunto, ou, melhor, anti-história, sem personagens principais que pedissem comparsaria às outras. O tema nasce no colectivo de um rancho de ceifeiros migradores, acompanha-lhes os passos desde a chegada à partida da lezíria ribatejana, no drama simples e directo da sua condição, destaca um ou outro para apontar certos fios mais individualizados, mas logo os faz regressar à trama do grupo. O trabalho produtivo, a exploração descarnada do homem pelo homem, tomados nos seus aspectos mais crus, na lâmina viva do dia-a-dia, dominam o livro.” (1966: pág. 9 e 10)

           
          Com esse desejo de estampar o mundo real, Gaibéus tem um olhar marxista sobre a pobreza, que se apresenta para esse povo como um fato do destino. A partir da consciência de classe, Redol retrata o enfurecimento de trabalhadores rurais que tinham terras e perderam tudo, em especial um ceifeiro, inconformado com a condição subumana de saírem para a colheita do arroz sem saber para onde iriam parar.
O livro retrata em grande corpo situações tristes, oscilações de condições de vida e de morte, por isso, antes de tudo, é pertinente conceituar a corrente literária portuguesa do Neorrealismo, que nasce numa relação interdependente com a produção literária de alguns expoentes pelo mundo, a se destacar, conforme Massaud Moisés (2008: 391) pelos escritores norte-americanos Michael Gold, John Steinbeck, Upton Sinclair, Sinclair Lewis, John dos Passos, H.G.Carliste, Erskine Caldwell, Ernest Hewingway; e também romancistas brasileiros do Nordeste, em especial Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Amando Fontes, José Américo de Almeida e Rachel de Queirós, que chamam a atenção para o grave problema socioeconômico das secas e a luta de classes em torno do açúcar e do cacau.
            Oliveira (2010), por sua vez, enumera nomes no cenário lusitano tanto na literatura como na pintura que expressaram o Neorrealismo, a citar Diego Rivera, José Orozco e David Siqueiros como característicos do muralismo mexicano[v]; Pablo Picasso como criador de Guernica, que pintou em 1937 com restrições ao cubismo; Candido Portinari, o pintor brasileiro que no quadroCafé” destaca a deformidade dos braços e pernas dos trabalhadores, agigantados pelo esforço brutalrepresentação essa que causou euforia entre os neorrealistas portugueses; e ainda, os artistas plásticos Lima de Freitas, Manoel de Pavia, Álvaro Cunhal e os escritores Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Castro Soromenho e Soeiro Pereira Gomes. “Em inúmeras obras os artistas plásticos se aliaram aos autores para, não simplesmente ilustrar, mas complementar graficamente o texto literário” (OLIVEIRA: 2010, 109)
            A classificação do próprio Alves Redol para sua produção é a seguinte: “Há em todo o romance a impetuosidade desregrada, o arrebatamento impulsivo de um jovem que anseia por libertar o homem de tais-grilhetas, desejando que a sua pena se torne ferramenta de progresso.” (pág. 10). A afirmação mais uma vez valida o posto alcançado por Gaibéus, de ser a obra de referência do neorrealismo português. Outra vez temos a felicidade de conhecer a opinião do próprio autor, que teve a sorte de colher em vida as críticas da maturidade de sua obra:
Como, porém, esses outros escritores se vangloriavam da sua posição extrema de arte pela arte, desfigurando-a, a reacção operou-se também por outro excesso, fenómeno natural no jogo das contradições, principalmente quando vem de jovens que se supõem, e ainda bem, capazes de renovar o mundo, o homem e a arte. O neo-realismo foi assim um sadio combate de juventude. E daí certo desprezo aparente por tudo o que representasse literatura sem raízes sociais bem vincadas, embora alguns dos seus poetas herdassem exactamente do «presencismo» a seiva formal para a sua poesia, enquanto outros se aconchegavam a Garcia Lorca ou Alberti, a Machado ou a Êluard,” (18) Faltava-me, pois, racionalizar a prosa, ganhar sobriedade, não tanto, porém, que enfraquecesse a mensagem, como tantas vezes acontece. Necessitava de alcançar, como Gramsci escreveu, a forma vivaz e expressiva, ao mesmo tempo sóbria e contida, porque, insistindo nesse trabalho aparentemente formal, acabaria por agir praticamente sobre o conteúdo; ganharia assim a deflação da retórica que estropia a cultura, particularmente a cultura jovem que se dirija para uma sociedade humana e científica. (1966: 13)

            Com essa avaliação, Redol cunha uma espécie de conceituação para sua obra, descrevendo sua retórica: as questões de conteúdo e forma, como uma obra emblemática e programática do início do neorrealismo português. Oliveira (2010:111) explica que o romance “trazia o problema da exclusão de grupos sociais e também de regiões que, desligadas de Lisboa, estavam à margem de qualquer projeto de desenvolvimento”. Com conteúdos menos individuais e elitistas, focaliza a classe trabalhadora (coletivo) e desfavorecida, exigindo uma nova forma narrativa, num raciocínio que nos elucida a diferença entre o realismo clássico e o neorrealismo:

“...deveria ser menos descritiva, não se tratando, pois, de expor umretrato fiel’ da realidade, ao modo do realismo clássico, mas de ressaltar os aspectos que ficaram obscurecidos e babalizados por questões culturais, como, por exemplo, considerar a pobreza como um fato do destino. A narrativa precisava ser reveladora e denunciadora daquilo que atinge a maioria das pessoas e é por elas ignorado. O neorrealismo pretendia formar uma cultura crítica e promover a consciência das responsabilidades humanas sobre a realidade narrada” (OLIVEIRA: 2010,111).

           
            Com essa característica, Gaibéus sensibiliza, leva o leitor às lágrimas, à dor e à indignação, se apresentando como um romance comovente, levando à crítica um prato cheio de real, o que ressoou na sociedade, aliado às artes plásticas, como uma necessidade premente de mudança, a começar pela libertação das amarras do governo ditatorial salazarista que acorrentou Portugal de 1928 a 1974, por longos 46 anos. Historicamente, é possível notar que Gaibéus nasceu neste contexto (em 1939) e renasceu neste princípio de fim, com a reedição de 1966. Cada publicação atingiu a sensibilidade da crítica com a incumbência de formar bases para mudanças sociais, que Gaibéus sensibiliza pela dor e por estampar a desigualdade da consciência de classe que degrada famílias e comunidades inteiras, em preterimento a poucos ricos.
            Nesse contexto, a tônica do neorrealismo visto em Gaibéus acentua a condição animalesca da vida, a começar pela descrição de “Rancho”, no primeiro capítulo, onde os trabalhadores misturavam-se com os animais, competindo de forma desigual no “conforto” e nos alimentos. A severidade do romance começa ser descortinada no segundo capítuloArroz à foice”, onde a desorientação dos trabalhadores para o fim de seu trabalho e de suas vidas fica latente. O arroz é o ouro que eles não podem acessar, embora o cultivem a vida toda, mas para os patrões. Seguem-se ainda os capítulosTrégua”, “Sete estrelas na praia”, “Mensagem da nuvem negra”, “Porto de todo o mundo”, “Malária”, “«Vou-me embora, deixo o campo ...»” e, por fim, “O Inverno vem ”. Em alguns trechos, a música e a dança configuram alívios para o estomago vazio, o corpo esvaído e a cabeça triste. Metáfora vivenciada no ditado populardançar conforme a música”, embalado inclusive porera o vinho, era o vinho, era o vinho... era a coisa que eu mais adorava”.
            Por fim, Redol constrói um povo com a alma sufocada, mas que é puro coração revestido de músculos para o trabalho árduo, de sol a sol. Nesse conjunto, o autor retrata a fadiga humana fundida com as necessidades fisiológicas de amar, cuidar dos filhos, ter um companheiro (a), fazer sexo, comer para sobreviver, trabalhar para resistir ao inverno, dormir para descansar. Chega ao limite das forças e dos sentimentos, da falta de afago, de respeito e de dignidade. Engolidos pelo trabalho exaustivo, os filhos crescem rápidos, mas franzinos, para o mesmo cruel destino.


Referências

HOUAISS. Dicionário Eletrônico de Língua Portuguesa. Versão 2009.
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. São Paulo: Cultrix, 2008 - 35ª Ed.
OLIVEIRA, Susan Aparecida de. Literatura Portuguesa III. Florianópolis: LLV/CCE/UFSC, 2010.
REDOL, Alves. Gaubéus. Digitalização e Arranjo de Agostinho Costa, em outubro de 2003. Obtido na Webteca da disciplina de Literatura Portuguesa III da UFSC no endereço



[i] Resenha produzida a cerca do romance Gaibéus, de Alves Redol, como avaliação parcial da disciplina de Literatura Portuguesa III, ministrada pela professora doutora em Literatura pela UFSC, Susan Aparecida de Oliveira, no quarto período do curso de Letra e Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
[ii] Jornalista formada pela Fadep (Faculdade de Pato Branco), trabalhou por quase oito anos no jornal Diário do Sudoeste de Pato Branco (PR); professora de Produção Textual, Literatura e Linguística, por ser licenciada em Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina); e especialista em Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE Business School de Curitiba (PR).
[iii] A palavra neorrealismo sofreu alterações com a reforma ortográfica que propõe a unificação da Língua falada e escrita nos países de Língua Portuguesa, em pleno vigor a partir de 2009. Portanto, é possível encontrar em algumas das bibliografias a escrita “neo-realismo” com hífen, mantidas nesse trabalho sem correção quando incorreram citações diretas entre aspas, para preservar a originalidade da expressão do autor e o tempo de nascimento dessas obras. Contudo, é válido lembrar que agora temos a queda do hífen e a grafia com o dobro de “r”, para escrever a palavra corretamente.
[iv] O professor titular da Universidade de São Paulo, Massaud Moisés (2008) traz na biografia de Alves Redol como nascido em Vila Franca de Xira, distrito de Lisboa, a 29 de dezembro de 1911. De família humilde, após quatro anos de internato, em que estudou contabilidade, entrou a ganhar a vida trabalhando, inclusive em Luanda (África), para onde seguiu com 16 anos, e de onde regressou em 1930, rico em experiências, mas parco em dinheiro. Em dezembro de 1939, iniciou a carreira de ficcionista e o Neorrealismo em Portugal com Gaibéus, romance que patenteava influencia da ficção brasileira do Nordeste, e da norte-americana, inspirada na depressão dos anos 30. “Assim como os contemporâneos da geração, havia descoberto semelhanças entre o drama dos pobres gaibéus, autenticos servos da gleba, e os retirantes nordestinos, escorraçados pelas secas e pela fome, e os “oakies” famintos e miseráveis” (2008: 397). Redol faleceu em Lisboa, a 29 de novembro de 1969.
[v] O muralismo mexicano pertence a uma tendência de arte inaugurada no início do século XX, feita em espaços públicos e não privados, onde os temas são trabalho, cultura indígena e a revolução mexicana de 1910-1920. (OLIVEIRA: 2010)