domingo, 15 de julho de 2012

"Revisitando" o espelho do meu quarto


Uma janela que abria para um mundo de possibilidades. Eu morava próxima a um bosque, ao lado de um terreno com muitas árvores. No meu quintal havia um bosque, aonde eu conversava com as árvores. 13 anos. Era a idade que eu tinha quando me mudei para aquela casa de alvenaria branca com janelas de alumínio Sasazaki. Dali daquela moldura comecei a ver o mundo. O verde, o canto dos pássaros, tudo entrava no meu quarto de adolescente. Tintas, papel, a velha máquina de escrever Olivetti de segunda mão, as cópias de minhas lições de datilografia, meus cartazes de Jornada Jovem... ah, isso era muito legal. Cada gaveta que eu abria descobria a surpresa de um papelzinho com uma bela frase que os meus amigos haviam escondido para eu encontrar justamente no momento mais inesperado. Tinha sempre aquele cheirinho inigualável da amizade carinhosa da adolescência, quando parece que a vida consegue ter um gosto por ora tão eterno, por outros tão efêmero. Nesses cruzamentos da vida, tinha cartazes com figuras lindas, uma frase que a Miriam fez pra mim: “não corra atrás das borboletas, plante flores que elas virão até você”. E quando o frio, o calor, o sol, o tempo foi apagando as letras da Miriam, eu gostava tanto do cartaz azul com a figura de um buque de flores colado que peguei um pincel atômico e passei a minha caligrafia sobre a da Miriam, porque eu não queria apagar nunca aquela frase do meu campo de visão. Até hoje não me lembro quando deixei as borboletas para trás. Ah, mas a coisa mais importante pra eu contar é sobre o meu espelho. Ah... espelho, espelho meu... que visão de mim você dá hoje? Aquele meu cúmplice que me acompanhava nos momentos em que eu estava linda, e nos que estava ridícula. Aquele que acompanhava todos os meus passos de dança, feitos de meia no chão sintecado que eu tanto encerava porque minha mãe gostava do chão bem brilhoso. E primeiro eu encerava e nesse momento conhecia cada veio da madeira que pintava o chão do meu quarto. Um contraste tão lindo com as paredes e o teto brancos. A parte de cima foi envernizada até o dia em que meu pai transformou tudo com um rolo e uma lata de tinta branco gelo em um ambiente bem mais iluminado. Mas sempre gostei muito de madeira e nessa época eu tinha uma mesa de madeira maciça, construída pelo meu bisavó paterno, encostada em uma das paredes de meu quarto. Ali eu criava as mais incríveis coisas. Abria minha caixa de tintas - magenta, amarelo ocre, verde musgo, vinho, verde oliva, azul celeste, roxo, vermelho escarlate – que morava bem ali em cima da mesa feita pelo meu bisavô, e escolhia as cores para a arte da tarde. Era camiseta, cartaz, um simples papel, muitos panos de prato, algumas fraldas. Ursinho, frutas, flores. Meu quarto tinha cheiro de tudo, tudo que me revelava. Da tinta, ao suor da dança, ao cheirinho gostoso da limpeza recém feita e da madeira hidratada com a cera. Eu já falei que o meu espelho ficava no centro do guarda-roupa? Isso foi no começo, porque logo que eu comecei a trabalhar, a primeira coisa que fiz foi substituir o velho guarda-roupa prensado por um bem bonito. Custou R$ 279 e tinha dois espelhos, um em cada porta central, do lado de fora. Eu me via bem melhor. Passei a dançar mais. Calça bailarina, camisetas, blusinhas curtas, abdominais, espelho, pinceladas, espelho. Ai que vício. Um dia na escola, a professora da 8ª série deu para lermos um texto descritivo que tratava de um circulo vicioso. Acho até que esse era o título, porque a cada três coisas que o personagem fazia, uma era cigarro e fósforo. Daí me dei conta que meu vício era espelho. Todas as noites ele me ilustrava os bobs pra acordar com o cabelo bonito da manha da escola. Anos mais tarde, estudando psicologia da comunicação, descobri que dá-se a isso o nome de narcisismo. Larguei um pouco os espelhos, porque não gosto de perder o foco da vida, mas só um pouco, porque me dei conta que pra eu achar meu eixo tenho que me olhar no espelho. Minha cama era de casal e recebia sempre as visitas de meu irmão caçula Victor à noite. Ele adorava dormir comigo e sentiu muito quando eu deixei a casa dos meus pais para me mudar com mais duas amigas para um apartamento no centro de Pato Branco que ia ser meu QG para estudar jornalismo.
Antes de cair na cama eu tinha que ter dito que o meu guarda-roupa é a minha caixa de pandora. Lá estavam meus tesouros. As roupas que procurava gostar de usar, apesar de nunca poder ter acesso às modinhas de verdade. Eram muito caras. Mas minhas roupas eram bonitas. Até, vejam só, tenho algumas peças dessa época ainda, e que ainda me servem. As costuradas pela dona Zilda. Que insistência em usar ainda, mas só se ficar bonita. Diferente dessa frase repetitiva que fiz. Na adolescência eu chamaria isso de “ridículo”, um dos sentimentos mais recorrentes entre as paredes branco-gelo de meu quarto. E eram limpas contrastando com a chuva de pensamentos que me assolava. De contornos, os cartazes da Miriam. Mas no meu guarda-roupa tinha também meu porta-jóias. Meus lindos brincos, anéis, colares. Passei quase minha vida toda com alguma correntinha no pescoço e anéis nos dedos. Faz anos que ela é de ouro, e faz três anos que tem um pingente de um menininho de boné contornando meu colo e aquecendo meu coração. Mas minhas jóias de adolescência eram bijouteria, só tinham valor sentimental. Muitas compradas em praia, que na metade do ano já estavam bem feias. Ah, passava o ano esperando as férias dos meus pais, para viajar com eles e meus irmãos pra praia. Então, na minha caixa de pandora tinha também meus biquínis. Antes de me mudar para esse quarto que tinha janela para o bosque, morávamos numa cidade em que nossa casa ficava em frente a um clube de piscina. Vivia preta. Melanina ativada. Tinha algumas roupas de banho que ocuparam ali, algumas das gavetas, numa posição mais aposentada durante todo o ano. Meu guarda-roupa tinha três gavetas grandes, logo atrás do espelho. A arara tinha casacos, vestidos, saias. Nas outras quatro portas não haviam espelhos, mas tinha calceiro. Eu achava isso muito legal, porque no guarda-roupa prensado não tinha lugar para pendurar as calças de forma tão simétrica. Ah, o prensado tinha penteadeira no meio. Na caixa de pandora com espelhos na porta, do lado de fora, eu tinha que fazer minha penteadeira nas prateleiras internas. Então, meu guarda-roupa tinha aquele cheirinho bom de perfume de moça, hidratante para o corpo e sabonete gostoso. Ah, eu me sentia tão bem abrindo aquelas portas. Ele era o dono de uma das paredes.
Nossa, descrever meu quarto é uma tarefa meio cansativa. Na outra parede, ao lado da mesa do meu bisavô que abrigava a caixa de tintas - e velha Olivetti que vez em sempre ocupava o centro da mesa, das lições de datilografia ao meu primeiro romance escrito – tinha uma estante de aço, singelamente pintada de azul bebe que abrigava todos os meus livros, cadernos, revistas Claudia, badulaques e tranqueiras dessa fase tão bagunçada da vida. Na primeira prateleira de baixo ficavam os calçados. Depois vinham as revistas que comecei devorar muito cedo, e uma sequencia de enfeites mimosos.
Sempre quero voltar pra cama. Ao lado dela, um criado mudo que abrigava o meu som, batizado na época de minisystem. Aprendi a fazer mágica e me beneficiar das palavras logo cedo. Transformei a caderneta ganha de R$ 150, meu texto publicado no jornal Novo Horizonte “Mãe, a vida dá vida” e os mais R$ 90 interados por meu bondoso pai em um aparelho de som. Empilhados abaixo dele estavam todos os meus poucos CDs – que estavam começando a surgir. Mas uma infinidade de fitas k7. Tinha uma sempre no ponto para eu gravar as músicas da hora que tocavam na Movimento FM. Largava a cera, o balde, a vassoura, a massa de pão, o que fosse, para correr apertar “rec”. Aos 15 anos, já tinha uma playlist interessante.
Mas sabe qual é a parte mais importante do meu quarto? É uma que permanece comigo até hoje: a essência da minha alma. Hoje enxergo com clareza tudo que parecia bagunçado e nebuloso dentro da moldura do bosque. Apesar de virginiana, sempre guardei muitos badulaques. É caixa, dentro de caixa, para guardar outra caixa. Coloridas, bonitas, diversos compartimentos, enfeitadas, com adesivos. Meticulosamente tudo separado, as vezes misturado. Caixas pra arrumação, caixas pra bagunça, caixa pra sapatos, caixa pra cintos e meias, caixa pra contas a pagar, para as cartas, bilhetes e marcas do namoro. Meu namoro com a vida, com a paixão de estar viva, com meus tesouros íntimos, esse namoro em si mesma, narcisista, apoiada na representação do real para não perder o norte. Me ver faz bem. 

Crédito imagem ilustração: 

terça-feira, 3 de julho de 2012



Christoferson
A nova proposta, de uma tradicional e antiga simetria
Daiana Pasquim[i]
O trio de melhores amigos Christoferson tem nome novo, nova proposta para 2012, mas uma história sequencial de anos para contar. Liderado pelo compositor pato-branquense, Lucas Piaceski - que tem o genoma de Eric Clapton, Neil Young, Ray Charles, Jimi Hendrix, Bob Dylan e Miles Davis, que se consolida numa releitura própria -, o trio se faz com o primo Matheus Angeli, no baixolão e o amigo de infância Luis Henrique, na bateria. Lucas é vocal, gaita, violão, e guitarra, o trio tem a proposta de fazer 80% de um genuíno repertório. Tocando seus instrumentos desde a infância, das músicas próprias, consolidam-se alguns covers vivenciados pela banda em quase dez anos, como os próprios Clapton, Young, Dylan, mas tambémCreedence, The Racounters, Queens of the Stoned Age e The Pixies.
São mais de 200 letras e 50 melodias criadas por Lucas Piaceski, ex Schonell (sobrenome materno adotado brevemente). A prova de originalidade do líder da banda – que já se chamou The Propellers, foi assistida pelo auditório do Sesc Pato Branco lotado, em 31 de julho de 2011, na 3ª etapa da “Aldeia Musical”. Antes da banda Paraná Blues se apresentar, o palco foi de Lucas Piaceski, com covers de Bob Dylan, Neil Young e The Band, mas metade do show feito de músicas compostas e criadas por ele mesmo. Foi uma oportunidade ímpar de mostrar a essência de sua arte. Entre elas estão Name In The Fire, My Boss and your Prostitutes, Moving Like Stones, Walking By The Trees, A Plane to the Promiced Land, Don’t Let Me Here, Working to Rise, e inúmeras outras. Músicas cujos vídeos de divulgação no Youtube com direção da jornalista Daiana Pasquim, ou áudios gravados em estúdio com ilustrações do próprio Lucas, que também é arte-finalista e cartunista, estão sendo divulgados.
Foi também dele a voz que encerrou o Aldeia Musical de 2011, apresentando-se dessa vez, com a big band The Loco Motive Blues, composta por oito músicos profissionais de Pato Branco, Francisco Beltrão e Coronel Vivida. Com a Loco Motive foram inúmeros shows em 2011 em casas das duas principais cidades do Sudoeste, com destaque para o Reveillón de 2012 no Clube Pinheiros, em Pato Branco.
Entre o rol de influências musicais bem pautadas no jazz, blues e funk, se for para se conceituar, resume “sou um cantor de blues”. Fato é que em suas canções há muitos vestígios Country, Folk, Surf Music, Indie Rock e até levemente Gospel.
A proposta de Christoferson – que por mera coincidência contém Cristo e Lucifér num mesmo nome-, de místico tem o poder de fazer vivenciar a simetria musical. Algo que não se encontra em qualquer melodia, apresentação e que independe do desejo de uma banda, simplesmente, acontece. Três jovens talentos que cresceram juntos, sem o propósito de serem encaixados nesse ou naquele gênero, mas sim, têm personalidade própria para ser o que são. Sons acústicos e elétricos numa só banda, num mesmo show, genuinamente revelado.

Para conferir áudios e performances acesse:
http://soundcloud.com/lucaspiaceski




[i] Jornalista em Pato Branco e formanda em Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFSC. daipasquim@hotmail.com. Assessoria Christoferson.  

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Desvendando os mistérios da torre


  
Daiana Pasquim
Pato Branco (PR), 28 de setembro de 2009
Poeira de 50 anos. Escada sem corrimão. Imagens antigas de santos de madeira. Muita adrenalina e medo e uma máquina fotográfica em mãos. Nunca antes em minha vida tinha sonhado subir na torre da igreja, quanto menos no forro, ficando bem próxima do telhado, mas meu envolvimento com as publicações que tenho escrito sobre a reforma da Igreja Matriz São Pedro repercutiram de tal forma que não seria prudente de minha parte deixar de conhecer de perto o motivo de que tanto estava falando.
A decisão de subir veio de repente. Sem pensar muito. Fui até a igreja na manhã daquela segunda-feira (28/09) com o objetivo de fazer a matéria do alagamento causado pela tempestade do domingo, o que reiteraria a necessidade de intervenções no telhado da igreja. No meio da entrevista, a deixa: se você subisse lá veria as reais condições... Pronto. Quando desliguei o gravador perguntei: você disse, subir lá, o que acha? Podemos? É muito difícil? Minha pergunta foi recebida com incredulidade. Está certo. Eu também sempre achei que isso fosse tarefa pra homem. Naquele momento também pensei em minha camisa alva que havia vestido há pouco mais de uma hora. Estremeci e pensei, o que eu vou fazer? Tenho um filho pra criar, e seu eu cair de lá? Mas por outro lado, a realidade chamava: daqui a uma semana a reforma começa e daí, adeus tour religioso. Nunca mais poderei. Rapidamente, foram em busca da chave com o zelador da paróquia, o competente e simpático Onécio Venturin, 68, há 24 conhecendo todos os detalhes da matriz.
Essa foi a primeira matéria de grande importância que fiz na vida sem anotar nada em papel, só em minha memória fotográfica. A única exceção foi o nome de meus guias e colaboradores nessa empreitada: o presidente do conselho administrativo da Paróquia São Pedro Apóstolo, Vilson Dallacosta; o membro do conselho administrativo, Paulo Sartor; e o zelador da Paróquia há 24 anos, Onécio Venturin.
Ainda tremo de lembrar. Tive medo, confesso. Mas tudo valeu a pena. Começamos a subir a torre do relógio da igreja e, a cada degrau, dos mais de 200, desvendava um pouco da curiosidade sobre conhecer o coração das badaladas que marcam o passo do centro de Pato Branco. Há poucos minutos havia escutado que a intenção é transformar o acesso ao local mais facilitado e seguro, para que principalmente os estudantes dos cursos de arquitetura e engenharia que temos no município pudessem fazer visitas ao patrimônio mais valoroso que ainda temos construído. A iniciativa realmente vai fazer muitos felizes. Nem todos têm a oportunidade de conviver ou conhecer mais a fundo a obra de um artista sacro, como a do arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto, o mesmo da Basílica de Aparecida (SP).
Uma porta foi aberta, dando acesso a um corredor terminado em cimento bruto e, por ser escuro, parecia bem menor. Lances curtos, sinuosos e o primeiro nível da torre se descortinou para meus olhos. As paredes eram forradas com armários de madeira maciça e guarda-roupas antigos, onde o marrom estava acentuado pela poeira. Cobertos pelas marcas do tempo estavam surpreendentemente alguns santos de madeira, quem sabe já não tão úteis. Imagem impressionante a ponto de eu não reconhecer se era São Pedro, São João, São Francisco tenho certeza que tinha. Bem no meio da sala, um recorte no chão coberto por um tablado de madeira. Perguntei: o que é isso? “Faz parte da estrutura do relógio”, explicaram.
Também vi duas raridades: quadros de 1,5m por 1m, com traços já bem apagados, representavam os desenhos originais, projetados por um escritório de Curitiba, das duas outras propostas arquitetônicas apresentadas para nossa igreja na época. Não sei se por paixão já, mas a que mais gosto é a edificada até hoje com a dedicação dos pioneiros do final da década de 1950 e do começo de 1960. De estilo neo-basilical, a Matriz São Pedro de fato lembra muito a Basílica de Aparecida. Já fiquei longos minutos contemplando as duas fotos. Busquei o melhor ângulo, evitando as réstias das janelinhas da torre e fotografei os quadros. O posicionamento ideal implicou pisar no tablado de madeira do relógio. Tudo certo. Paulo também fotografou e logo os quadros foram virados novamente de frente para os armários numa tentativa de preservar melhor os traços na batalha contra o tempo. “Deveriam estar guardados em outro lugar”, reconheceram. Eu sugiro uma exposição nas paredes da Casa Canônica.
Para chegar ao segundo nível da torre tive que segurar a respiração. Foi preciso subir estreitos degraus de madeira, num trecho sem corrimão. Ai ai ai. Segurei na parede e não mexi mais nada além do dobrar de joelhos e pés. Chegamos ao local da máquina do relógio. Outra espécie de armário ou caixa de madeira fechada à chave guarda as centenas de engrenagens que, simetricamente, ditam o tempo pato-branquense. Fiz uma série de perguntas: Quem faz a manutenção do relógio quando estraga? Ele é só mecânico ou tocado a energia também? São três pêndulos? “O frei Nelson Rabelo que vem consertar. Ele tem um gerador que é acionado para puxar os pêndulos quando bate uma hora. Tem três pêndulos”, explicou o zelador Onécio.
Mais um lance e vimos a imensa estrutura de madeira, disposta na horizontal, com fios à direita e esquerda ponteados por dois redondos relógios pequenos. Mais um lance de escadas e chegamos a continuação da engenhoca, uma espécie de andaime do sino - numa sala também molhada pela chuva – ostentado na parte mais alta. É dali que saem os sons. Apontaram-me os martelos de ferro provocador das badaladas e contaram como funciona o sino. Um leve balançar e um dlom... só pra me mostrar, saiu fora do compasso do intervalo religioso de 15 em 15 minutos. Que orgulho! Obrigada. Tentei fazer as melhores fotos possíveis, mas a estrutura era grande demais para caber, de uma só vez, na lente da teleobjetiva. Se fosse uma grande-angular... pensei. Há também o alto falante, que reproduz o som na cidade.
Voltamos dois lances de escadas. Tive que pedir o ombro e uma descida lenta ao sr. Onécio, não para respeitar seus cabelos brancos, mas sim o meu temor em conseguir ter forças de descer a escada estreita de madeira sem corrimão. Ouvi umas três vezes: “se você travou para descer a escada não vai conseguir ir até o telhado”. Ai, mexeu com os brios. Vinha com promessa: “será uma aventura”. E eu estava bem motivada. Dallacosta mostrou o percurso e eu não quis acreditar. As pernas bambearam mais. Um travessa de madeira, uns 70cm, ligando a mureta da escada a uma janelinha que dava acesso ao forro. Olhei para baixo e vi todos os lances que ficavam em baixo. “Não vou conseguir”, bradei. Fui retrucada com uma série de incentivos. “A gente te ajuda. Eu seguro a máquina para você entrar. Põe o pé aqui, se apóia, escorrega aqui e pronto, é fácil. Você verá todo o telhado e o forro”. Minha razão dizia não, por isso não me permiti pensar. Fui logo levantando o pé em direção a mureta e quando vi, estava sentada no tablado. Agora, melhor que voltar atrás, só me restava escorregar. Uma abertura do lado direito dava acesso ao ar livre, bem mais próximo do céu. Vi todo o telhado de um ângulo único. Sugeriram até que poderia subir ali para fotografar. Não me encorajei para tanto. “Põe o pé aqui. Ande por essas tábuas”, orientou Dallacosta. Disparei a fazer fotos. A pouca luz, em si, era um convite para soltar o flash e poder, no visor de 3 polegadas, visualizar os detalhes que a olho nu ficavam distantes ou perigosos demais para acessar.
Nessa hora passou um filme pela cabeça, trazendo flashes da proposta de reforma, e não restauração. A proposta do Conselho Administrativo da Paróquia é trocar o telhado atual de peças de barro em função do peso, por folhas de aço zincado. Além de já não mais possuírem o assentamento correto por terem perdido as garras, cada metro quadrado de telhas pesa 65kg. A nave do telhado mede 1.800 m2, o que soma um total de 117 mil kg sobre a cabeça dos fiéis.
O cenário compensa. Estava na região em cima do altar. Entre o forro e o telhado. Fiz uma foto histórica, tenho certeza. As telhas de barro, perfeitamente irmãs, seguradas por madeira seleta, preparada pelos pioneiros. São essas as vigas serradas por José Viganó e família, que já havia apresentado em matéria há alguns dias, acompanhada da foto possivelmente feita em 1963. Um pinheiro para cada viga. Estiquei os olhos, mas não localizei propriamente imperfeições nas tesouras de madeira.
Revelar nesse conto a visão introspectiva e feminina do que vem a ser um “passeio” na torre da igreja em 2009 me causou emoção. Sim porque, no próximo ano, em abril, quando a reforma que começa dia 5 de outubro ficar pronta, o cenário será outro. Com troca completa nas instalações elétricas que hoje botam medo e a melhoria de acesso, o telhado da igreja pode sim se tornar um ponto turístico ou de estudo. Encarei com a postura de uma historiadora desvendando os mistérios da torre, atestando meu papel como jornalista em poder levar para a sociedade uma centelha de sensações daqueles caminhos de acesso restrito.
No fundo, os “mistérios” são mais uma construção interna de minhas expectativas íntimas do que propriamente do espaço que visitei. A ligação está na condição sublime que conhecer o “esqueleto” da casa de Deus. O templo onde as pessoas vão buscar forças e levar suas angústias, procurar conforto e o eixo sublime que as possa conduzir nas provações da vida. Aquele local onde meu olhar e pensamento já ficaram imersos por longos minutos olhando para o mosaico, em todas as fases de construção até ficar totalmente pronto. “Como é alto! sublime”. De repente, me vi em pé acima dele. Desci e tremi o restante do dia.

Melodias Traçadas



O processo criativo do chargista e arte-finalista do Diário do Sudoeste, Lucas Piaceski, que já compôs mais de 200 músicas e 40 melodias

Daiana Pasquim
Curioso é que quem criou essa página foi a própria fonte. É raro isso acontecer, para não dizer impossível. Mas nesta capa de hoje trazemos o perfil do chargista do Diário do Sudoeste Lucas Piaceski, que é também arte-finalista do jornal, mas ocupa grande parte de sua vida como compositor e cantor. Ao revelarmos detalhes disso, não seria demais dizer que essa capa é sobre o talento. Lucas Piaceski tem o genoma de Eric Clapton, Neil Young, Ray Charles, Jimi Hendrix, Bob Dylan e Miles Davis, mas é um ser único. Uma releitura própria. “Tenho sorte de ter boas influências musicais, que sempre apareceram involuntariamente para mim. Na verdade, aparecem pra qualquer pessoa, depende de você querer viver na poesia do Bob Dylan ou no choro do Luan Santana”. Entre o rol de influências musicais bem pautadas no jazz, blues e funk, se for para se conceituar, resume “Sou um cantor de blues. Quem me assistir tocando pode dizer “isso não é blues, esse cara engana as pessoas”, pode até ser verdade, pois todo musico é mentiroso, mas se prestar atenção nas minhas musicas, vai achar vestígios de blues em todas elas”, comenta.

Aldeia Musical e bandas
Essa prova de originalidade poderá ser medida justamente neste domingo (31), na 3ª etapa da “Aldeia Musical” realizada pelo Sesc Pato Branco, a partir das 18h. Antes da banda Paraná Blues se apresentar, o palco do auditório é de Lucas Piaceski, que fará covers de Bob Dylan, Neil Young e The Band, mas metade do show será de músicas compostas e criadas por ele mesmo. Uma oportunidade ímpar de mostrar a essência de sua arte. Entre elas estão Name In The Fire, My Boss and your Prostitutes, Moving Like Stones e uma que concluiu no último final de semana e ainda está escolhendo o nome perfeito, mas deverá se chamar Swift and Clean, que nasceu numa nova fase do cantor. “Tocar sozinho é muito gratificante e livre, mas muito mais difícil, porque não existe uma banda pra te apoiar se você errar. É uma apresentação de identidade, as pessoas vão ver quem você é de verdade”.
Certamente, vai ser uma experiência bem diferente da que vem vivenciando com a “The Loco Motive Blues”, a banda composta por nove músicos profissionais, que em dois shows no Bauhaus Club e Porão neste mês de julho fez a galera vibrar. Os próximos serão em agosto, no Casamata dia 20; e no Confidência, em Francisco Beltrão, dia 27. “Sempre quis tocar em uma banda, então qualquer oportunidade que aparece de entrar em uma banda eu vou agarrando, mas tocar em duas já está bom, não pretendo entrar numa terceira banda. Tenho sorte de tocar com grandes músicos da cidade. Para começar, o trio, “The Propellers”, que surgiu de ensaios numa estufa de pintura, com o baterista, Luis Henrique e o baixista, Matheus Angeli. Mais recentemente com a Loco Motive Blues. A banda está tomando uma proporção cada vez maior, pois envolve muitas pessoas”, comenta satisfeito.
Desde a gravação do seu CD demo, em 2009, vive um crescimento sutil, mas meteórico. Entre os seus planos futuros está um acústico romântico. “Estou com um projeto já faz algum tempo, de gravar dez músicas com apenas violão e voz. Todas estão escritas em um livro azul e pretendo dar vida a elas em estúdio no próximo mês”. Escolher o repertório é a questão. Lucas Piaceski já compôs mais de 200 músicas, todas em inglês. “Claro que nem metade disso virou música completa. Pra compor você tem que estar constantemente tentando, imagina que dessas 200 sobraram apenas umas 40”.

Se lapidando
Um artista está sempre se lapidando, mesmo que involuntariamente. Mas no último ano, Lucas deu um salto criativo grande e trabalha suas composições com alto nível de exigência, escolhendo cada palavra. “Quando acontecem mudanças na sua vida, reflete totalmente nas músicas, pra melhor ou pior. Minha sorte é que dei um salto positivo e estou com mais inspiração do que nunca pra escrever. Pra nascer uma boa música você deve escrevê-la com toda a sinceridade do mundo, sem enganar a você mesmo ou a quem vai escutar a música depois”.
Soma-se a isso o fato de ter começado a trabalhar como arte-finalista no Diário do Sudoeste, onde simultaneamente aperfeiçoou sua veia de desenhista. Como a cabeça funciona pra administrar tudo isso? “Se você não organizar as idéias, com 20 anos é capaz de já perder todos os cabelos. Gosto de separar as idéias por setores, se você deixar as coisas misturarem, vai perder o controle e o equilíbrio. Não tem como escrever uma música de amor e desenhar uma charge sobre o aumento da inflação ao mesmo tempo, não vai sair nada de produtivo”.
Desde os três anos de idade, ele sempre desenhou, apreciando bastante os tracejados de Benett, Paixão, Henfil e Marchesini da Gazeta do Povo, Glauco, Adão e Laerte, e os internacionais, como o Glenn MacCoy, do New York Times e Saul Steinberg. “Era de brincadeira até eu entrar no Diário. Quando as charges começaram a ser publicadas fiquei muito satisfeito, porque foi a primeira vez que meu trabalho se tornou público e os desenhos ganharam forma e vida. Agora tenho que desenhar pro jornal e não só pra mim”.
As da vez são Cafife Total, publicadas nas páginas centrais desse Caderno 2. “As tiras do Cafife Total são meio malucas, são linhas de pensamento que gosto de compartilhar. Falam de problemas clichês da sociedade moderna, podem falar desde brigas de casal até críticas a cirurgia plástica desnecessária. Abrange problemas comuns e complexos, de forma descontraída. Às vezes a tragédia é tão triste que você tem que amenizar com uma piadinha. Pretendo publicar as tiras todos os dias na pagina de variedades do Diário do Sudoeste, assim que tiver material e tempo suficiente pra isso”, comenta.
Como as ilustrações são publicadas gradativamente, diz que ainda está conquistando espaço. “Estou no processo de “acostumar” o leitor comigo fazendo gracinha e criticando todo dia. Mas já recebi boas respostas de vários amigos e conhecidos com as tiras, charges e ilustrações. Espero continuar deixando meu traço cada vez mais familiar e característico e deixar que o leitor crie uma identidade própria pra isso”.

Arte francesa no supermercado


Em um mês, as artesãs Izabel e Rubia confeccionaram 26 quadros na técnica ainda inédita para exposições em Pato Branco

Daiana Pasquim
Enquanto as rodinhas dos carrinhos circulam barulhentas, eles estão ali singelos, compondo o ambiente. Mas quem arrisca olhar um pouco para cima enquanto passa, logo por eles é tocado. São os 26 quadros feitos com a técnica de arte francesa, expostos no hall lateral de um supermercado de Pato Branco, por onde passam os clientes no acesso ao estacionamento. Os quadros foram criados pela artesã e artista plástica em Pato Branco, Izabel Cristina Malinovski e a engenheira agrônoma e artesã Rubia Cristiani Camochena, no tempo recorde de um mês, especialmente para serem expostas no supermercado. As obras estão no Espaço Cultural Artista de Nossa Terra, aberto pela empresária Ana Paula Slonski, para ser um local que se destina a valorizar, divulgar e engrandecer a arte de Pato Branco e região, desde 2 de maio de 2008. 

Relevo e profundidade
A arte francesa consiste na sobreposição de gravuras de papel para transformar a imagem plana em outra com relevo e profundidade. Izabel é artesã há oito anos, sendo que há quatro abriu um atelier aonde ensina, além da arte francesa, também as técnicas de se trabalhar com madeira, sua especialidade, além de forragem com tecido, patchcolagem e patchwork. Com o atelier junto à casa no Jardim Primavera, fez da arte uma profissão mantida pelas aulas e a venda das obras. Os 26 expostos no supermercado com a sócia Rubia variam de R$ 65,00 a R$ 375,00.
Izabel costuma participar de eventos e exposições em centros como São Paulo, buscando aperfeiçoamentos na área do artesanato. “Antes, a arte francesa era mais em linha reta. Agora trabalha muito o formato, para tornar as figuras mais naturais. São colagens de vários papeis, com silicone, para deixar o papel boleado, trabalhamos e fazemos o corte para dar as formas para a figura, de forma a deixar o mais natural possível”, explica a artesã.
Elas programaram diferentes obras, envolvidas por molduras texturizadas e vidro. “Como artesã, a gente inicialmente pensa em fazer para vender, sem pensar tanto em ser reconhecida, mas várias pessoas têm telefonado. Dá orgulho como professora de artesanato, ser reconhecida. O artesanato tem crescido bastante, mas o pessoal de modo geral não valoriza muito ainda”. Para os interessados em aprender as técnicas da arte francesa ou o trabalho com madeira, o telefone do Shopping da Arte é 3224 4043.
No supermercado, existe o encontro da minusciosidade do trabalho com o popular, aonde a arte convida para frear um pouco os “rolamentos” da vida, para apreciar. Quando for às compras, olhe para cima.

Ecos resplandecentes das vozes femininas






Daiana Pasquim
No reflexo no espelho não temos só duas mulheres com perfis diferentes. Temos uma representação da literatura brasileira contemporânea, aonde a escrita feminina ganha cada vez mais espaço, embora não se possa fazer da literatura um lugar para a divisão de gêneros. Mas elas têm muito em comum. A catarinense, roteirista de TV e escritora Adriana Lunardi e a gaúcha escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária Cíntia Moscovich começaram a carreira literária juntas, com livros de contos. Esta, com “Reino das Cebolas” e aquela com “As meninas da Torre Helsinque” impulsionados em 1996 por um financiamento da Prefeitura de Porto Alegre (RS), o Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproart).
Ouvindo o percurso como escritora que cada uma delas trilhou, não parece simplório perceber que para conseguir crescer e ser reconhecida como uma profissional da escrita deve-se mesmo buscar bolsas para escritores, financiamentos artísticos e culturais e projetos literários. Fato, é que ambas hoje são dois nomes que ecoam na literatura brasileira contemporânea, como mulheres que sucederam a ruptura do Modernismo somado a Raquel de Queiroz, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles – nomes isolados até 1960 – serem bastante boas para referendar hoje esse lançar de novos olhares sobre o fazer ficção. Na última quarta-feira (17), Adriana e Cíntia foram as estrelas do “Vozes femininas”, dentro do ciclo de “Autores & Ideias”, recebido pelo Sesc Pato Branco. Antes mesmo de se abrir essa janela para o encontro entre o autor e o seu público, fomos conversar com ambas no Hotel Loriza, aonde estavam hospedadas. Uma conversa agradabilíssima revelou as nuances aguerridas para se tornar uma escritora: estudo, pesquisa na área, determinação, autocrítica como um crivo inicial, uma boa dose de talento e sim, sorte.
“A gente precisa de sorte também. Esse é o elemento. Eu sei que eu tenho vocação para a escrita. Algum talento devo ter, embora duvide quase sempre do tamanho dele, mas acho que isso tudo, mais o trabalho duro que tem que ser feito, se pode ter e fazer tudo, mas também tem que contar com a sorte. Eu não posso me negar a admitir que eu tive muita sorte”, menciona Adriana Lunardi. O seu pé de coelho foi estar no lugar certo. Com a mudança para o Rio de Janeiro, em 1999, ela se inscreveu e recebeu a bolsa para escritores da Fundação Biblioteca Nacional e foi indicada ao prêmio Jabuti com o livro de contos “Vésperas” - uma homenagem a grandes escritoras, transformadas em personagens e retratadas na sua solidão, ambiguidades, paixões e angústias. A idéia de morte, sob diferentes focos, perpassa o livro, escrito como uma prosa poética. São nove histórias, cada uma delas envolve uma personalidade da literatura: Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa. Adriana Lunardi valeu-se de detalhes biográficos dessas mulheres, combinou-os com a sua ficção e, nos contos sobre Woolf, Parker, Colette, Mansfield e da Costa, intui e descreve os últimos dias e momentos de suas vidas.
“É um prêmio para escritores que estão com obras em andamento. Apresentei cinco contos, descrevi qual seria o projeto e ganhei essa bolsa para terminar a escritura do livro. Aí tive a sorte de poder chegar a uma editora de porte nacional, como a Rocco, com um original premiado, o que me abriu as portas da editora. Eu cheguei com a bolsa nacional que tem muito prestigio, por ser um dos poucos prêmios dados pela Biblioteca Nacional. Consegui publicar por uma grande editora e esse foi um livro que veio no momento certo de ter sido escrito e publicado”. Em sua predileção, Adriana é muito leitora da Katherine Mansfield, Virginia Woolf e Clarice Lispector. “São as minhas queridas”.

O mistério do conto
A jornalista e mestre em Teoria Literária, Cíntia Moscovich diz ter se saturado da redação, deixando há cinco anos de ser a editora de livros Zero Hora. Hoje ela está vinculada a Editora Record, do Rio de Janeiro, para a qual está escrevendo o livro de contos “Essa coisa brilhante que é a chuva”, impulsionada pela bolsa de criação literária que ganhou da Petrobrás. Seu projeto de lançamento atrasou em função de um câncer e ela reclama um pouco da promiscuidade de escrever em casa, aonde a vida doméstica se (com)funde com a profissional. Apesar do benefício de estar em seu lar, tem que combater os ruídos infantis de uma creche instalada ao lado de sua casa, escrevendo bem mais nas madrugadas, apesar de confessar produzir melhor à tarde.
Cíntia é daquelas que estampa uma autocrítica ferrenha, o que, teoricamente, se faz uma rocha para receber os desgostos alheios, não que precise. “Fiz muitos contos, alguns que nunca publiquei, mas devo ter feito uns 50 contos, o que não é grande ciosa. E não bastasse não ser grande coisa esse numero, não sei de qual eu gosto mais, mas sei que eu não gosto de uns 20 desses que nunca publiquei. Cada um tem um problema. Na maioria das vezes, acho que eles estão muito óbvios, tendendo ao lugar comum, tendendo a pegadas “sentimentaloides”, com sentimentalismo meio desnecessário. Em grande parte deles, eu sei que escrevi demais, só que não estou vendo ainda aonde cortar. Então, esses são motivos suficientes para que eu não goste deles. Escrevi demais e não sei aonde cortar? Não está bom”, determina.
Nessa finesse, Cintia talvez seja a pessoa certa para revelar qual é o mistério do conto? “O mistério do conto é o próprio mistério da literatura, mas elevado a uma potência muito maior. O segredo do conto é contar uma história de forma não evidente e não óbvia, ocultando algumas partes, mas levando o seu leitor a entender o que está oculto, com base naquilo que está aparente. Será que dá para entender? Esse jogo de ocultamento é o grande lance do conto e a grande dificuldade de autores que iniciam, para poder entender a medida do que se vai ocultar e o que se vai deixar aparente no que se está contando”, teoriza.
Sem qualquer hesitação, afirma que a escrita feminina não pode ser identificável. “A concepção de literatura não engloba a questão de gênero, o sexo e gênero da pessoa é uma questão extraliterária. Não está incluído. A literatura é uma questão estética. Não há uma questão de gênero. (...) Considerar que existe uma literatura feminina é estar reduzindo o próprio papel da literatura, o conceito que temos sobre ela”.
E com a praticidade gaúcha, é realista ao detalhar não ser uma fácil missão viver da escrita. “Para se trabalhar como escritor há de se ter outros trabalhos. Dou aula de criação literária, tenho uma oficina na minha casa, viajo pelo interior dando aulas. Venho para o Paraná pelo SESC para falar com as pessoas sobre literatura, escrevo para jornal, revista, escrevo orelhas de livros, resenha. Tem um varejo que a gente tem que atender para poder viver de literatura”. Assim, ela conclui seu ensaio dando as glórias ao que chama de “Tio Sesc” como um precursor e incentivador da literatura contemporânea. “O Sesc é genial. Eu tenho ido a lugares bem remotos. O dia que a gente for contar a história da cultura no Brasil tem que ter o nome do SESC. Ele chega a lugares aonde nenhum ministério, nenhuma secretaria de nenhuma cultura chega. E o SESC propicia isso. Essa visibilidade das escritoras contemporâneas também”.

Legenda
As escritoras Adriana Lunardi e Cíntia Moscovich percorreram o Paraná com sete encontros pelo “Autores & Ideias” do Sesc