quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Das linhas do jornal para as veias da educação

Os primeiros acordes anunciam que a voz de Norah Jones viria suave em seguida com "Young Blood". Assim toca meu despertador às 5h40 da manhã, todas as quartas e quintas-feiras, há quase três meses, nos quais venho cultivando uma relação muito saudável e de intenso aprendizado com crianças e adolescentes dos 11 aos 15 anos: são minhas turmas do 6º ao 9º ano, do Ensino Fundamental 1.  Tenho cinco turmas para chamar de “minha”. Quando me graduei em Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa, esse era o desejo mais intenso: poder dar a minha cara para as aulas, sendo professora regente – coisa que não se consegue como estagiária.
As aulas da manhã começam às 7h30, mas o detalhe é que leciono em Francisco Beltrão e, residindo em Pato Branco, tenho que sair de casa no máximo 6h20 da manhã, para viajar e lecionar com segurança. Não dá para negar que o madrugar seja um choque ao intelecto e, ao conciliar essa rotina com o exercício jornalístico, um desafio, pois a dedicação às matérias se intensificou como editora de suplementos do Diário do Sudoeste, casa onde estou há exatos sete anos e meio. Contudo, é um cenário muito compensador, pois a cada dia tenho a sensação de, em sala de aula ou na redação, colocar um tijolinho para melhorar o mundo.
Ser escritora era um desejo da adolescência: 13 anos. Foi nessa idade que as palavras me fisgaram de vez e comecei a guinar para a profissão de “jornalista”, já que lendo biografias, descobri que a maioria dos escritores trabalhava como tal, tendo papéis, linhas, tinta, divulgação de notícias e ensinamentos como instrumento de trabalho. Passados mais de dez anos eis que, como jornalista, percebi que incutia nas matérias o desejo de construir um mundo melhor, buscando formas e caminhos “educadamente” possíveis para isso. O exercício de jornalismo literário vive em mim quase como uma necessidade de alimentação do espírito. Então surgiu o curso de Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Após mais quatro anos e meio de estudos veio a graduação, o que me abriu as portas para começar a lecionar neste ano de 2012, no Colégio Águia de Francisco Beltrão.
É numa pasta rosa e branca com diversos compartimentos que acondiciono as dezenas de textos que os alunos produzem a cada quarta e quintas-feiras. Em casa, após fazer uma leitura minuciosa em cada linha, vem a sensação de satisfação ao ver nas folhas uma evolução em coerência, coesão e abordagem de tema que impulsiono em sala de aula.
Se fosse para dar uma geral no vício escolar da garotada de hoje, poderia arriscar dizer ser a pouca preocupação com a “caligrafia”. Na era da tecnologia e dos botões, o maior esforço de um professor talvez seja decifrar os hieróglifos que nascem das mãos de alguns alunos. Mas é inegável que essa Geração Y, para quem lecionamos, agora dispõe de uma riqueza de ideias e recursos que deixaria nossos textos escolares num estado perdedor em termos de comparação.
Como “professora-jornalista”, ensino produção textual e linguística (gramática) também. Como “jornalista-professora”, a experiência na educação vem nos últimos três anos junto aos editores-mirins do projeto Diarinho Cultural do Sudoeste do Paraná, alunos dos 4º e 5º anos da rede municipal de 13 municípios do Sudoeste.
Se a comunicação é um instrumento em comum entre professores e jornalistas, é inegável que essas áreas se conversam, por isso, acredito que essa ponte, por vezes um tanto desvairada, tem dado certo.
Mesmo sendo íntima das palavras, para quem ama a profissão é quase indefinível encontrar um termo que bem transporte a sensação de ser chamada de “professora”. Por isso é preciso fechar esse texto registrando algumas impressões desde o momento em que a coordenadora pedagógica Franciele me apresentou aos alunos. Caminhos que percorrem a técnica e a relação social.
Com o 6º ano, a palavra “respeito” teve que ser escrita no quadro por algumas aulas, mas hoje existe um acordo de cavalheiros de erguer a mão para falar e, no papel, soltar “o verbo” e a imaginação. Com os dois 7º anos, seara de criatividade, ganho surpresas positivas de produção a cada semana, onde a sincronização de conteúdos das turmas dá aos alunos iguais oportunidades de aprendizado, o que rendeu textos, vídeos, apresentações musicais e até de um teatro na Mostra de Talentos do Águia, no final desse mês de outubro. Com o 8º ano, é a união da turma e o carinho de uns para com os outros que dão a maior lição de convivência e de conhecimento. Meu pedido: “deem mais balões” para crescermos ainda mais em criatividade textual. E com o 9º ano, no alto de seus 13 e 14 anos, há um misto de personalidades caracterizado já com algumas aspirações de futuro. Não posso deixar de registrar uma experiência relâmpago como professora substituta dando uma primeira aula de quarta-feira para o segundão do Médio. Com a mesma característica estrutural do 9º ano – sala numerosa (leia-se 25 a 30 alunos), o professor fica num palco – vi nos rostos desses jovens a natural evolução das séries escolares, temperado com um interesse muito peculiar de participação. Quando o sinal bateu, saí da sala querendo extrair deles muito mais, a partir das sementes venho selecionando para plantar e compartilhar.
De folha em folha preenchida com “caligrafia”, é inegável que os dias em casa nunca mais foram os mesmos, pois os fins de semana são sempre povoados de textos para corrigir, intercalados com o plantão na redação do jornal. Se o trabalho não fosse minha vida, daria pra dizer que quase não sobra um bom tempo para viver.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

ENQUETE - O que você pensa sobre a nossa língua?





Na aula de Gramática com meus alunos do 6º ano enchemos o quadro com os conceitos pessoais de cada um desses pré-adolescentes sobre o que pensam sobre a língua. Saíram concepções bem interessantes!
São conceitos curtos que perpassam os dois usos que fazemos da língua: o idioma que ilustra nossa língua materna, bem como o órgão degustativo que articula os fonemas:

“A cada texto, rima ou palavra, há sempre algum mistério que a deixa mais divertida”
Isabella

“É difícil aprender tudo sobre a língua”
Gabriela

“Sem a língua a gente não poderia se comunicar”
Luís Eduardo

“Sem ela, não poderíamos sentir o sabor das coisas”
Eduardo

“Viveríamos num mundo solitário sem a língua”
Ana Valéria

“A língua é áspera e pegajosa”
João Guilherme

“Sem a língua não entenderíamos o que os outros têm a nos dizer”
Maria Heloisa

“É uma língua boa”
Lucas T.

“A língua é muito importante”
Ronald

“Sem a língua seria um silêncio. Ela é cheia de papilas degustativas”
Nicole

“A língua é chata”
Heitor

“Sem ela, teríamos apenas uma ideia sobre as coisas. É conversamos que saímos com duas opiniões”
Vitor

“A língua é cheia de sinais”
Lucas F.

“A língua tem cor”
João Olivo

“A língua é sempre divertida e sempre nos prega peças”
Ana Luiza

“A língua tem vida”
Iara

“A língua é doce e clara”
Luiz

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ela é o livro



“Barthes está errado. O autor não morreu e não morrerá nunca. O livro não é escrito por um fantasma, mas por um ser de carne e osso, fruto de sua vida pessoal, de um momento histórico definitivo”, defende a professora dra da UFSC que tem 22 livros publicados, cinco lançados ontem em Pato Branco



Daiana Pasquim

Pato Branco



Alma feroz. Para mim, Salma Ferraz sempre soou assim. Feroz não no sentido de selvagem, mas de extraordinário. Assim como aquele que apresentou a Língua Portuguesa ao mundo, Saramago, detém o “mago” e inventou a escrita “saramágica”, Salma descreve a “alma” e evidencia na literatura tudo que diz respeito a Deus e ao diabo. A mãe de minha professora do curso de Letras e Literaturas em Língua Portuguesa sabia o que estava fazendo quando lhe batizou, lá em Ibaiti, no norte velho do Paraná, ao lado de um pico, o chamado Pico Agudo que pertenceu à sua própria família no passado. Salma Ferraz nasceu há exato meio século ao pé do Pico Agudo, um lugar habitado por muitos fantasmas... pode ser daí que vem esse misticismo que rodeia sua imagem tão cintilante.

A primeira vez que a vi, foi numa aula por videoconferência e pensei: ela é uma bruxa. Toda de vermelho, dos pés a cabeça, porque o chapéu lhe é um elemento composto ao corpo quase como as mãos, logo acima dos cachos dourados que formam o invólucro para seu cérebro brilhante. Mãos essas que escrevem tão avidamente. Salma é autora de 17 livros de crítica literária e cinco de ficção. Nesta sexta-feira (10), trouxe três de crítica e dois de contos a Pato Branco, e os lançou na Galeria de Artes Maria Genoveva, concedendo muitos autógrafos. Mas ela não se envaidece. “Acho que nós [críticos literários] não somos tão importantes assim”, disse, apenas na segunda vez que repeti a pergunta.

A li principalmente durante as disciplinas de Literatura Portuguesa I e Estudos Literários III. Além de apenas dois, de seus 22 livros. Muito pouco ainda. Quero mais linhas. Quando a vi pessoalmente pela primeira vez tive um estalo: Salma tem um texto só. Ela é o livro, dentro de inúmeros intertextos. A vida de Salma é a literatura, a literatura é ela mesma.

Ao cultivar esse fascínio pela autora/professora/bruxa das palavras, guardava a vontade de fazer com ela essa entrevista perfil. E essas revelações que você lerá a seguir foram fruto de trocas de muitos e-mails, porque Salma reside em Florianópolis (SC), onde está a sede de minha universidade, a Federal de Santa Catarina (UFSC). Lá aonde as águas têm cristais, ela respira a inspiração de seu trabalho, também porque “existem sim bruxas na Ilha da Magia”, afirma Salma.

Mas antes de começarmos o pingue-pongue, é necessário passar mais duas informações: Salma Ferraz é a patronesse de nossa turma “17 guerreiras e um herói”, que receberá a outorga de grau a partir das 18h deste sábado (11) no Teatro Municipal Naura Rigon; e ela é perita em José Saramago, que ao morrer em 2010, teve de Salma um artigo publicado na revista Ler & Cia (Ed. 33), “O ano da morte de José Saramago – em 18 de julho de 2010, ninguém morreu”, aonde mencionava justamente que ao concluir o “Dicionário de Personagens”, cujo lançamento trouxe ao Sudoeste, o seu mestre morreu. Fazia dez anos que eles se conheciam pessoalmente. Ela o lê. Ele também a leu. Já dividiram taxi, tomaram café de duas horas e meia no hotel... hoje Salma mantém contato com a esposa do escritor português (foto).

Doutora em Literatura Portuguesa, ela é professora associada de Literatura Portuguesa da UFSC há exatos 17 anos, na qual dirige o Núcleo de estudos comparados entre Teologia e Literatura (Nutel), além de atuar na pós-graduação de Literatura com a linha de pesquisa “Teopoética - Os Estudos Comparados entre Teologia e Literatura”; e é membro da Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia (Alalite), da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic) e da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (Abraplip). “Foi um longo percurso. Daria um livro por si só. O que posso te dizer é que sou persistente, não desisto nunca de meus objetivos”.

O currículo resumido é grandioso, mas neste texto, com todo o respeito e admiração, a chamo de “você”, isso porque quando se leva um autor para a sua cabeceira, ele vira o seu íntimo. E sim, o autor está mais vivo do que nunca, numa contestação que juntas fazemos a Barthes e, se você chegar ao fim desta leitura, vai compreender:



Você leu Saramago muito profundamente e escreveu As Faces de Deus na Obra de um Ateu e fez o dicionário sobre os personagens dele. Sua relação com Saramago era de intensa troca?

A obra de Saramago sempre terá influência em minha ficção, uso epígrafes dele, citações. Minha relação com Saramago era de admiração, de discípula para o mestre. Eu o conheci quando ele recebeu o Doutoramento da Universidade Federal Fluminense no ano 2000. Eu o presentei com meu livro O Quinto Evangelista, ele ficou me olhando e comentou: "pensei que a senhorinha fosse mais velha". Naquela época eu era jovem.... Ficamos no mesmo hotel e no outro dia decidi não ir ao evento naquela manhã, pois estava muito cansada. Ocorre que Saramago também pensou o mesmo. E acredite quem apareceu para tomar café no refeitório vazio: ele! Conversamos umas duas horas e eu, que faço regime, comi tudo que podia para acompanhá-lo. Agora tenho trocado ideias com Pilar del Río sobre projetos na Fundação Saramago.



Você é uma grande escritora e uma professora amada... e quais eram seus sonhos de menina? Ser educadora sempre foi uma intenção?

Não, quando criança pensava em ser médica. Mas era de uma família muito humilde. Como gostava muito de ler, a literatura foi o caminho que escolhi. E creio que não seria uma boa médica. Detesto sangue e pessoas abertas...



Confesso que as primeiras impressões suas que tive foram: “ela é tão radiante, personalidade forte, presença marcante, parece até uma bruxa”. As bruxas existem aonde?

Existem. Principalmente aqui na Ilha da Magia. As bruxas, as que eram queimadas na Idade Média como tal, não eram bruxas, eram mulheres que detinham um conhecimento acima do normal, que conseguiam ver além dos outros. Só que este dom é dom dolorido. Quem consegue ver além da massa, sofre muito.



Nos conte um pouco sobre sua rotina diária de pesquisa, estudos, produção, criação de aulas?
Eu leio muito. Em torno de três a quatro horas por dias. Outra coisa: durmo muito. Oito horas por noite e mais uma hora e meia após o almoço. Quanto mais se dorme, mas se produz. Um cérebro descansado é uma máquina de fazer pensamento. À tarde costumo me dedicar às revistas e aos jornais, pela manhã estudo o que é mais pesado, os livros. A criação literária fica para fins de semana e final do ano. À noite vou à academia, pois sou muito agitada. Agora resolvi cursar Teologia...



Com mais de 20 obras publicadas, como consegue estabelecer uma produção tão intensa? Sua vida é só trabalho? Ou o trabalho é a sua vida?

Sim, foram 5 livros que saíram este ano. Como te disse minha produção depende da cama. Quanto mais durmo, mais produzo. Não sou autor de virar madrugadas lendo. Meu cérebro funciona diurnamente. Devo muito da minha produção ao energético Centrum. Sem ele não seria ninguém. Acho que vou virar garota propaganda do produto. O trabalho é minha vida. Digo sempre que por enquanto só temos esta vida, da outra ninguém voltou. Então temos que tirar o atraso e produzir muito. Não tenho tempo para futilidades. Só faço unha e cabelo quando a coisa tá feia mesma. E só vou ao salão na segunda de manhã, quando não tem ninguém. A burrice me dá coceira...



Literata especializada em Teopoética, o que mais te inspira a escrever e a publicar livros?

Divulgar o pouco que sei, sintetizar o pensamento de outros estudiosos e divulgá-los. São poucas as mentes brilhantes que fazem a história. Encanta-me conhecê-las. Gostaria de viver umas dez vidas de 90 anos para poder dar conta de ler tudo o que quero: Teologia, Literatura, Filosofia, etc, etc.



Em sua mais nova obra: “As malasartes de Lúcifer”, - o qual li a introdução de forma honrada ainda no prelo por sua gentileza em me enviar por e-mail no último dezembro- pressuponho dedicar-se a construir quase uma “redenção” ao diabo. A que atribui o fascínio e medo que as pessoas têm para com essa figura “divina”?

As pessoas tem medo, mas não do Diabo. No fundo, elas sabem que o Diabo é a apenas a exteriorização do seu próprio eu. O ser humano dispensa o Diabo, pois sabe fazer coisas que o Diabo jamais faria. É muito mais fácil atribuir as desgraças e fracassos a Deus ou ao Diabo com frases tipo “Deus quis assim”, ou “ tava endominhado”, do que pegar as rédeas da sua vida em suas mãos e dizer: acertei, errei, sou o responsável. É como se o ser humano precisasse ser tutelado pela Igreja, pelo Estado, por Deus e pelo Diabo. Um ser estúpido que não sabe o que faz e precisa jogas suas decisões nas costas de alguém.



Você já chamada pela mídia para explicar as mais intrigantes historias que mexeram com a sociedade, como a polêmica de “O Código Da Vinci”, quando foi ao Jô Soares. Como você se sente com tudo isso?

Orgulhosa, por ver que meus estudos estão sendo reconhecidos. E humilde e triste porque me falta ler muito ainda.



Afinal, Maria Madalena foi ou não a mulher de Jesus?
Não foi. E se tivesse sido não haveria escândalo algum. Escândalo na cultura judaica era ser solteiro. Não foi, porque pelos relatos dos evangelistas, a vida de Jesus foi muito curta e ele não teve tempo para isto. Se tivesse sido casado, os evangelistas relataiam isto com a mior tranquilidade. Madalena não foi a adúltera, não foi a mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus com óleo santo, nem tão pouco, a irmã de Marta e irmã de Lázaro. Madalena não tinha pertença, não pertencia a ninguém, era livre e, principalmente, a Discípula amada, a primeira testemunha da ressurreição. Como pode a Igreja Católica ainda não ordenar as mulheres diante de um fato contundente destes?



Como sua aluna, a impressão que me passa é a de que tanto conversando com vc, assistindo às suas aulas, quanto lendo suas obras, a gente “te lê”, o tempo todo. “Vc é o livro”, ambulante como seu livro Ateu. Como você recebe essa impressão?
O interessante é que já apontaram isto. Tem uma aluna na Universidade Estadual de Maringá que está fazendo um mestrado sobre minha obra literária. Ela veio até mim comprar um livro num lançamento, mas conversou um minuto e saiu correndo. Disse que não queria me conhecer. Como ela está estudando minha obra, fazendo uma dissertação. Ela está certa, tem que se manter longe do objeto de pesquisa. Porque quem me conhece quando lê meus contos, parece que está me ouvindo falar. Talvez porque eu aproveite muitas das estórias da minha vida para utilizar na ficcão. Embora o que está no papel seja diferente da estória que a motivou, porque se trata de ficção e de personagens de papel, parece que eu sou o livro. Outra coisa: eu cito muito as obras que trabalho na crítica na minha ficção.



Quais são os melhores escritores de todos os tempos?

Difícil, muito difícil. Há grandes obras e grandes autores (alguns desconhecidos) e qualquer lista é excludente, subjetiva e, por isto, inválida. Mas, correndo o risco de errar, creio que nenhum estudante poderia se formar sem ter lido: 1) A Divina Comédia, 2) Dom Quixote em 3) a Bíblia, porque é a base da civilização ocidental.



Aprendemos na licenciatura em Letras e Literaturas sobre a morte do autor. Quem leu a dedicatória de seu “O ateu ambulante (2011)”, e o conto homônimo, percebe que os “Ricardos” tendem a ser a mesma pessoa, seu tio. Contei-lhe numa mensagem online logo após ler a obra, de que ficava difícil matar o autor diante da riqueza de detalhes narradas em 1ª pessoa. Vc era a sobrinha. Como Barthes leria seu primeiro capítulo?

Não, Barthes está errado. O autor não morreu e não morrerá nunca. O livro não é escrito por um fantasma, mas por um ser de carne e osso, fruto de sua vida pessoal, de um momento histórico definitivo. Flaubert usou a expressão "Emma Bovary c'est moi". Saramago, e isto eu coloco na Introdução do meu Dicionário de Personagens da Obra de José Saramago, que lançarei nesta sexta também era contra o conceito de Barthes, ao afirmar que ele era Blimunda, Baltasar, Madalena, Jesus e o Diabo. Também digo que sou Ricardo do Ateu Ambulante, sou a Filha de O Capote de A Ceia dos Mortos, como sou a mulher que odeia as Bundas sem cérebro em Efeito Melancia de Nem Sempre Amar é tudo.



Como devemos “conversar” com as teorias literárias para que nos tornem pessoas melhores?
Antes das teorias, vc deve ler o livro. O livro do autor sempre será superior a qualquer teoria. A teoria ilumina o livro, nunca o contrário! Diante da opção única, o livro, o crítico, fique com o livro.



Ao concluir a entrevista, tive a redenção. Também sempre achei que o Barthes estivesse errado. Estudamos isso em três cadeiras. O artigo sempre voltava... Ter essa afirmação de Salma foi uma libertação. O autor está mais vivo do que nunca. E Saramago também concordaria.

domingo, 15 de julho de 2012

"Revisitando" o espelho do meu quarto


Uma janela que abria para um mundo de possibilidades. Eu morava próxima a um bosque, ao lado de um terreno com muitas árvores. No meu quintal havia um bosque, aonde eu conversava com as árvores. 13 anos. Era a idade que eu tinha quando me mudei para aquela casa de alvenaria branca com janelas de alumínio Sasazaki. Dali daquela moldura comecei a ver o mundo. O verde, o canto dos pássaros, tudo entrava no meu quarto de adolescente. Tintas, papel, a velha máquina de escrever Olivetti de segunda mão, as cópias de minhas lições de datilografia, meus cartazes de Jornada Jovem... ah, isso era muito legal. Cada gaveta que eu abria descobria a surpresa de um papelzinho com uma bela frase que os meus amigos haviam escondido para eu encontrar justamente no momento mais inesperado. Tinha sempre aquele cheirinho inigualável da amizade carinhosa da adolescência, quando parece que a vida consegue ter um gosto por ora tão eterno, por outros tão efêmero. Nesses cruzamentos da vida, tinha cartazes com figuras lindas, uma frase que a Miriam fez pra mim: “não corra atrás das borboletas, plante flores que elas virão até você”. E quando o frio, o calor, o sol, o tempo foi apagando as letras da Miriam, eu gostava tanto do cartaz azul com a figura de um buque de flores colado que peguei um pincel atômico e passei a minha caligrafia sobre a da Miriam, porque eu não queria apagar nunca aquela frase do meu campo de visão. Até hoje não me lembro quando deixei as borboletas para trás. Ah, mas a coisa mais importante pra eu contar é sobre o meu espelho. Ah... espelho, espelho meu... que visão de mim você dá hoje? Aquele meu cúmplice que me acompanhava nos momentos em que eu estava linda, e nos que estava ridícula. Aquele que acompanhava todos os meus passos de dança, feitos de meia no chão sintecado que eu tanto encerava porque minha mãe gostava do chão bem brilhoso. E primeiro eu encerava e nesse momento conhecia cada veio da madeira que pintava o chão do meu quarto. Um contraste tão lindo com as paredes e o teto brancos. A parte de cima foi envernizada até o dia em que meu pai transformou tudo com um rolo e uma lata de tinta branco gelo em um ambiente bem mais iluminado. Mas sempre gostei muito de madeira e nessa época eu tinha uma mesa de madeira maciça, construída pelo meu bisavó paterno, encostada em uma das paredes de meu quarto. Ali eu criava as mais incríveis coisas. Abria minha caixa de tintas - magenta, amarelo ocre, verde musgo, vinho, verde oliva, azul celeste, roxo, vermelho escarlate – que morava bem ali em cima da mesa feita pelo meu bisavô, e escolhia as cores para a arte da tarde. Era camiseta, cartaz, um simples papel, muitos panos de prato, algumas fraldas. Ursinho, frutas, flores. Meu quarto tinha cheiro de tudo, tudo que me revelava. Da tinta, ao suor da dança, ao cheirinho gostoso da limpeza recém feita e da madeira hidratada com a cera. Eu já falei que o meu espelho ficava no centro do guarda-roupa? Isso foi no começo, porque logo que eu comecei a trabalhar, a primeira coisa que fiz foi substituir o velho guarda-roupa prensado por um bem bonito. Custou R$ 279 e tinha dois espelhos, um em cada porta central, do lado de fora. Eu me via bem melhor. Passei a dançar mais. Calça bailarina, camisetas, blusinhas curtas, abdominais, espelho, pinceladas, espelho. Ai que vício. Um dia na escola, a professora da 8ª série deu para lermos um texto descritivo que tratava de um circulo vicioso. Acho até que esse era o título, porque a cada três coisas que o personagem fazia, uma era cigarro e fósforo. Daí me dei conta que meu vício era espelho. Todas as noites ele me ilustrava os bobs pra acordar com o cabelo bonito da manha da escola. Anos mais tarde, estudando psicologia da comunicação, descobri que dá-se a isso o nome de narcisismo. Larguei um pouco os espelhos, porque não gosto de perder o foco da vida, mas só um pouco, porque me dei conta que pra eu achar meu eixo tenho que me olhar no espelho. Minha cama era de casal e recebia sempre as visitas de meu irmão caçula Victor à noite. Ele adorava dormir comigo e sentiu muito quando eu deixei a casa dos meus pais para me mudar com mais duas amigas para um apartamento no centro de Pato Branco que ia ser meu QG para estudar jornalismo.
Antes de cair na cama eu tinha que ter dito que o meu guarda-roupa é a minha caixa de pandora. Lá estavam meus tesouros. As roupas que procurava gostar de usar, apesar de nunca poder ter acesso às modinhas de verdade. Eram muito caras. Mas minhas roupas eram bonitas. Até, vejam só, tenho algumas peças dessa época ainda, e que ainda me servem. As costuradas pela dona Zilda. Que insistência em usar ainda, mas só se ficar bonita. Diferente dessa frase repetitiva que fiz. Na adolescência eu chamaria isso de “ridículo”, um dos sentimentos mais recorrentes entre as paredes branco-gelo de meu quarto. E eram limpas contrastando com a chuva de pensamentos que me assolava. De contornos, os cartazes da Miriam. Mas no meu guarda-roupa tinha também meu porta-jóias. Meus lindos brincos, anéis, colares. Passei quase minha vida toda com alguma correntinha no pescoço e anéis nos dedos. Faz anos que ela é de ouro, e faz três anos que tem um pingente de um menininho de boné contornando meu colo e aquecendo meu coração. Mas minhas jóias de adolescência eram bijouteria, só tinham valor sentimental. Muitas compradas em praia, que na metade do ano já estavam bem feias. Ah, passava o ano esperando as férias dos meus pais, para viajar com eles e meus irmãos pra praia. Então, na minha caixa de pandora tinha também meus biquínis. Antes de me mudar para esse quarto que tinha janela para o bosque, morávamos numa cidade em que nossa casa ficava em frente a um clube de piscina. Vivia preta. Melanina ativada. Tinha algumas roupas de banho que ocuparam ali, algumas das gavetas, numa posição mais aposentada durante todo o ano. Meu guarda-roupa tinha três gavetas grandes, logo atrás do espelho. A arara tinha casacos, vestidos, saias. Nas outras quatro portas não haviam espelhos, mas tinha calceiro. Eu achava isso muito legal, porque no guarda-roupa prensado não tinha lugar para pendurar as calças de forma tão simétrica. Ah, o prensado tinha penteadeira no meio. Na caixa de pandora com espelhos na porta, do lado de fora, eu tinha que fazer minha penteadeira nas prateleiras internas. Então, meu guarda-roupa tinha aquele cheirinho bom de perfume de moça, hidratante para o corpo e sabonete gostoso. Ah, eu me sentia tão bem abrindo aquelas portas. Ele era o dono de uma das paredes.
Nossa, descrever meu quarto é uma tarefa meio cansativa. Na outra parede, ao lado da mesa do meu bisavô que abrigava a caixa de tintas - e velha Olivetti que vez em sempre ocupava o centro da mesa, das lições de datilografia ao meu primeiro romance escrito – tinha uma estante de aço, singelamente pintada de azul bebe que abrigava todos os meus livros, cadernos, revistas Claudia, badulaques e tranqueiras dessa fase tão bagunçada da vida. Na primeira prateleira de baixo ficavam os calçados. Depois vinham as revistas que comecei devorar muito cedo, e uma sequencia de enfeites mimosos.
Sempre quero voltar pra cama. Ao lado dela, um criado mudo que abrigava o meu som, batizado na época de minisystem. Aprendi a fazer mágica e me beneficiar das palavras logo cedo. Transformei a caderneta ganha de R$ 150, meu texto publicado no jornal Novo Horizonte “Mãe, a vida dá vida” e os mais R$ 90 interados por meu bondoso pai em um aparelho de som. Empilhados abaixo dele estavam todos os meus poucos CDs – que estavam começando a surgir. Mas uma infinidade de fitas k7. Tinha uma sempre no ponto para eu gravar as músicas da hora que tocavam na Movimento FM. Largava a cera, o balde, a vassoura, a massa de pão, o que fosse, para correr apertar “rec”. Aos 15 anos, já tinha uma playlist interessante.
Mas sabe qual é a parte mais importante do meu quarto? É uma que permanece comigo até hoje: a essência da minha alma. Hoje enxergo com clareza tudo que parecia bagunçado e nebuloso dentro da moldura do bosque. Apesar de virginiana, sempre guardei muitos badulaques. É caixa, dentro de caixa, para guardar outra caixa. Coloridas, bonitas, diversos compartimentos, enfeitadas, com adesivos. Meticulosamente tudo separado, as vezes misturado. Caixas pra arrumação, caixas pra bagunça, caixa pra sapatos, caixa pra cintos e meias, caixa pra contas a pagar, para as cartas, bilhetes e marcas do namoro. Meu namoro com a vida, com a paixão de estar viva, com meus tesouros íntimos, esse namoro em si mesma, narcisista, apoiada na representação do real para não perder o norte. Me ver faz bem. 

Crédito imagem ilustração: 

terça-feira, 3 de julho de 2012



Christoferson
A nova proposta, de uma tradicional e antiga simetria
Daiana Pasquim[i]
O trio de melhores amigos Christoferson tem nome novo, nova proposta para 2012, mas uma história sequencial de anos para contar. Liderado pelo compositor pato-branquense, Lucas Piaceski - que tem o genoma de Eric Clapton, Neil Young, Ray Charles, Jimi Hendrix, Bob Dylan e Miles Davis, que se consolida numa releitura própria -, o trio se faz com o primo Matheus Angeli, no baixolão e o amigo de infância Luis Henrique, na bateria. Lucas é vocal, gaita, violão, e guitarra, o trio tem a proposta de fazer 80% de um genuíno repertório. Tocando seus instrumentos desde a infância, das músicas próprias, consolidam-se alguns covers vivenciados pela banda em quase dez anos, como os próprios Clapton, Young, Dylan, mas tambémCreedence, The Racounters, Queens of the Stoned Age e The Pixies.
São mais de 200 letras e 50 melodias criadas por Lucas Piaceski, ex Schonell (sobrenome materno adotado brevemente). A prova de originalidade do líder da banda – que já se chamou The Propellers, foi assistida pelo auditório do Sesc Pato Branco lotado, em 31 de julho de 2011, na 3ª etapa da “Aldeia Musical”. Antes da banda Paraná Blues se apresentar, o palco foi de Lucas Piaceski, com covers de Bob Dylan, Neil Young e The Band, mas metade do show feito de músicas compostas e criadas por ele mesmo. Foi uma oportunidade ímpar de mostrar a essência de sua arte. Entre elas estão Name In The Fire, My Boss and your Prostitutes, Moving Like Stones, Walking By The Trees, A Plane to the Promiced Land, Don’t Let Me Here, Working to Rise, e inúmeras outras. Músicas cujos vídeos de divulgação no Youtube com direção da jornalista Daiana Pasquim, ou áudios gravados em estúdio com ilustrações do próprio Lucas, que também é arte-finalista e cartunista, estão sendo divulgados.
Foi também dele a voz que encerrou o Aldeia Musical de 2011, apresentando-se dessa vez, com a big band The Loco Motive Blues, composta por oito músicos profissionais de Pato Branco, Francisco Beltrão e Coronel Vivida. Com a Loco Motive foram inúmeros shows em 2011 em casas das duas principais cidades do Sudoeste, com destaque para o Reveillón de 2012 no Clube Pinheiros, em Pato Branco.
Entre o rol de influências musicais bem pautadas no jazz, blues e funk, se for para se conceituar, resume “sou um cantor de blues”. Fato é que em suas canções há muitos vestígios Country, Folk, Surf Music, Indie Rock e até levemente Gospel.
A proposta de Christoferson – que por mera coincidência contém Cristo e Lucifér num mesmo nome-, de místico tem o poder de fazer vivenciar a simetria musical. Algo que não se encontra em qualquer melodia, apresentação e que independe do desejo de uma banda, simplesmente, acontece. Três jovens talentos que cresceram juntos, sem o propósito de serem encaixados nesse ou naquele gênero, mas sim, têm personalidade própria para ser o que são. Sons acústicos e elétricos numa só banda, num mesmo show, genuinamente revelado.

Para conferir áudios e performances acesse:
http://soundcloud.com/lucaspiaceski




[i] Jornalista em Pato Branco e formanda em Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFSC. daipasquim@hotmail.com. Assessoria Christoferson.  

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Desvendando os mistérios da torre


  
Daiana Pasquim
Pato Branco (PR), 28 de setembro de 2009
Poeira de 50 anos. Escada sem corrimão. Imagens antigas de santos de madeira. Muita adrenalina e medo e uma máquina fotográfica em mãos. Nunca antes em minha vida tinha sonhado subir na torre da igreja, quanto menos no forro, ficando bem próxima do telhado, mas meu envolvimento com as publicações que tenho escrito sobre a reforma da Igreja Matriz São Pedro repercutiram de tal forma que não seria prudente de minha parte deixar de conhecer de perto o motivo de que tanto estava falando.
A decisão de subir veio de repente. Sem pensar muito. Fui até a igreja na manhã daquela segunda-feira (28/09) com o objetivo de fazer a matéria do alagamento causado pela tempestade do domingo, o que reiteraria a necessidade de intervenções no telhado da igreja. No meio da entrevista, a deixa: se você subisse lá veria as reais condições... Pronto. Quando desliguei o gravador perguntei: você disse, subir lá, o que acha? Podemos? É muito difícil? Minha pergunta foi recebida com incredulidade. Está certo. Eu também sempre achei que isso fosse tarefa pra homem. Naquele momento também pensei em minha camisa alva que havia vestido há pouco mais de uma hora. Estremeci e pensei, o que eu vou fazer? Tenho um filho pra criar, e seu eu cair de lá? Mas por outro lado, a realidade chamava: daqui a uma semana a reforma começa e daí, adeus tour religioso. Nunca mais poderei. Rapidamente, foram em busca da chave com o zelador da paróquia, o competente e simpático Onécio Venturin, 68, há 24 conhecendo todos os detalhes da matriz.
Essa foi a primeira matéria de grande importância que fiz na vida sem anotar nada em papel, só em minha memória fotográfica. A única exceção foi o nome de meus guias e colaboradores nessa empreitada: o presidente do conselho administrativo da Paróquia São Pedro Apóstolo, Vilson Dallacosta; o membro do conselho administrativo, Paulo Sartor; e o zelador da Paróquia há 24 anos, Onécio Venturin.
Ainda tremo de lembrar. Tive medo, confesso. Mas tudo valeu a pena. Começamos a subir a torre do relógio da igreja e, a cada degrau, dos mais de 200, desvendava um pouco da curiosidade sobre conhecer o coração das badaladas que marcam o passo do centro de Pato Branco. Há poucos minutos havia escutado que a intenção é transformar o acesso ao local mais facilitado e seguro, para que principalmente os estudantes dos cursos de arquitetura e engenharia que temos no município pudessem fazer visitas ao patrimônio mais valoroso que ainda temos construído. A iniciativa realmente vai fazer muitos felizes. Nem todos têm a oportunidade de conviver ou conhecer mais a fundo a obra de um artista sacro, como a do arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto, o mesmo da Basílica de Aparecida (SP).
Uma porta foi aberta, dando acesso a um corredor terminado em cimento bruto e, por ser escuro, parecia bem menor. Lances curtos, sinuosos e o primeiro nível da torre se descortinou para meus olhos. As paredes eram forradas com armários de madeira maciça e guarda-roupas antigos, onde o marrom estava acentuado pela poeira. Cobertos pelas marcas do tempo estavam surpreendentemente alguns santos de madeira, quem sabe já não tão úteis. Imagem impressionante a ponto de eu não reconhecer se era São Pedro, São João, São Francisco tenho certeza que tinha. Bem no meio da sala, um recorte no chão coberto por um tablado de madeira. Perguntei: o que é isso? “Faz parte da estrutura do relógio”, explicaram.
Também vi duas raridades: quadros de 1,5m por 1m, com traços já bem apagados, representavam os desenhos originais, projetados por um escritório de Curitiba, das duas outras propostas arquitetônicas apresentadas para nossa igreja na época. Não sei se por paixão já, mas a que mais gosto é a edificada até hoje com a dedicação dos pioneiros do final da década de 1950 e do começo de 1960. De estilo neo-basilical, a Matriz São Pedro de fato lembra muito a Basílica de Aparecida. Já fiquei longos minutos contemplando as duas fotos. Busquei o melhor ângulo, evitando as réstias das janelinhas da torre e fotografei os quadros. O posicionamento ideal implicou pisar no tablado de madeira do relógio. Tudo certo. Paulo também fotografou e logo os quadros foram virados novamente de frente para os armários numa tentativa de preservar melhor os traços na batalha contra o tempo. “Deveriam estar guardados em outro lugar”, reconheceram. Eu sugiro uma exposição nas paredes da Casa Canônica.
Para chegar ao segundo nível da torre tive que segurar a respiração. Foi preciso subir estreitos degraus de madeira, num trecho sem corrimão. Ai ai ai. Segurei na parede e não mexi mais nada além do dobrar de joelhos e pés. Chegamos ao local da máquina do relógio. Outra espécie de armário ou caixa de madeira fechada à chave guarda as centenas de engrenagens que, simetricamente, ditam o tempo pato-branquense. Fiz uma série de perguntas: Quem faz a manutenção do relógio quando estraga? Ele é só mecânico ou tocado a energia também? São três pêndulos? “O frei Nelson Rabelo que vem consertar. Ele tem um gerador que é acionado para puxar os pêndulos quando bate uma hora. Tem três pêndulos”, explicou o zelador Onécio.
Mais um lance e vimos a imensa estrutura de madeira, disposta na horizontal, com fios à direita e esquerda ponteados por dois redondos relógios pequenos. Mais um lance de escadas e chegamos a continuação da engenhoca, uma espécie de andaime do sino - numa sala também molhada pela chuva – ostentado na parte mais alta. É dali que saem os sons. Apontaram-me os martelos de ferro provocador das badaladas e contaram como funciona o sino. Um leve balançar e um dlom... só pra me mostrar, saiu fora do compasso do intervalo religioso de 15 em 15 minutos. Que orgulho! Obrigada. Tentei fazer as melhores fotos possíveis, mas a estrutura era grande demais para caber, de uma só vez, na lente da teleobjetiva. Se fosse uma grande-angular... pensei. Há também o alto falante, que reproduz o som na cidade.
Voltamos dois lances de escadas. Tive que pedir o ombro e uma descida lenta ao sr. Onécio, não para respeitar seus cabelos brancos, mas sim o meu temor em conseguir ter forças de descer a escada estreita de madeira sem corrimão. Ouvi umas três vezes: “se você travou para descer a escada não vai conseguir ir até o telhado”. Ai, mexeu com os brios. Vinha com promessa: “será uma aventura”. E eu estava bem motivada. Dallacosta mostrou o percurso e eu não quis acreditar. As pernas bambearam mais. Um travessa de madeira, uns 70cm, ligando a mureta da escada a uma janelinha que dava acesso ao forro. Olhei para baixo e vi todos os lances que ficavam em baixo. “Não vou conseguir”, bradei. Fui retrucada com uma série de incentivos. “A gente te ajuda. Eu seguro a máquina para você entrar. Põe o pé aqui, se apóia, escorrega aqui e pronto, é fácil. Você verá todo o telhado e o forro”. Minha razão dizia não, por isso não me permiti pensar. Fui logo levantando o pé em direção a mureta e quando vi, estava sentada no tablado. Agora, melhor que voltar atrás, só me restava escorregar. Uma abertura do lado direito dava acesso ao ar livre, bem mais próximo do céu. Vi todo o telhado de um ângulo único. Sugeriram até que poderia subir ali para fotografar. Não me encorajei para tanto. “Põe o pé aqui. Ande por essas tábuas”, orientou Dallacosta. Disparei a fazer fotos. A pouca luz, em si, era um convite para soltar o flash e poder, no visor de 3 polegadas, visualizar os detalhes que a olho nu ficavam distantes ou perigosos demais para acessar.
Nessa hora passou um filme pela cabeça, trazendo flashes da proposta de reforma, e não restauração. A proposta do Conselho Administrativo da Paróquia é trocar o telhado atual de peças de barro em função do peso, por folhas de aço zincado. Além de já não mais possuírem o assentamento correto por terem perdido as garras, cada metro quadrado de telhas pesa 65kg. A nave do telhado mede 1.800 m2, o que soma um total de 117 mil kg sobre a cabeça dos fiéis.
O cenário compensa. Estava na região em cima do altar. Entre o forro e o telhado. Fiz uma foto histórica, tenho certeza. As telhas de barro, perfeitamente irmãs, seguradas por madeira seleta, preparada pelos pioneiros. São essas as vigas serradas por José Viganó e família, que já havia apresentado em matéria há alguns dias, acompanhada da foto possivelmente feita em 1963. Um pinheiro para cada viga. Estiquei os olhos, mas não localizei propriamente imperfeições nas tesouras de madeira.
Revelar nesse conto a visão introspectiva e feminina do que vem a ser um “passeio” na torre da igreja em 2009 me causou emoção. Sim porque, no próximo ano, em abril, quando a reforma que começa dia 5 de outubro ficar pronta, o cenário será outro. Com troca completa nas instalações elétricas que hoje botam medo e a melhoria de acesso, o telhado da igreja pode sim se tornar um ponto turístico ou de estudo. Encarei com a postura de uma historiadora desvendando os mistérios da torre, atestando meu papel como jornalista em poder levar para a sociedade uma centelha de sensações daqueles caminhos de acesso restrito.
No fundo, os “mistérios” são mais uma construção interna de minhas expectativas íntimas do que propriamente do espaço que visitei. A ligação está na condição sublime que conhecer o “esqueleto” da casa de Deus. O templo onde as pessoas vão buscar forças e levar suas angústias, procurar conforto e o eixo sublime que as possa conduzir nas provações da vida. Aquele local onde meu olhar e pensamento já ficaram imersos por longos minutos olhando para o mosaico, em todas as fases de construção até ficar totalmente pronto. “Como é alto! sublime”. De repente, me vi em pé acima dele. Desci e tremi o restante do dia.