sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CRÔNICA - Esforço Formiguinha




Pé ante pé, quase sonâmbula, Henriqueta arrasta-se para o banheiro empurrada pelo toque do despertador. Mais uma manhã urgia e clamava por trabalho. Acomoda-se sentada e começa a olhar para os quadrados brancos delimitados pelo rejunte cinza escuro. Nota então que deles, de quando em quando, movimentavam-se pequenos pontinhos pretos que ora escondiam-se, ora seguiam em fileiras. “Formigas”, pensou.
O sono ainda presente conteve o impulso de matá-las e, enquanto liberava seu organismo do armazém da noite, passou a observar o comportamento desses insetos que vivem em comunidade. A súbita apreciação deu-lhe a certeza sobre o quanto seres humanos e formigas são parecidos. Do seu esforço, à sua pequenez. Da sua persistência, à sua vitória.
Sim, Henriqueta se deu conta que esse levantar diário seguido da ida para o trabalho tentando lançar suas novas ideias, o hábito de abrir a janela e tentar enxergar diferente, é nada mais que um esforço formiguinha. Os insetos pequeninos andavam em filas, quase que rastreando uns aos outros, pelo cheiro, pela atitude, pelo mero costume de se seguirem? Questionou. E o livre arbítrio, em que piso quadrado se perdeu? Quantas assim se desgarraram pelo caminho, morreram na empreitada, foram abandonadas pelo grupo sem ao menos uma palavra de carinho, sem um tempo para dizer “adeus”?
O que nós seres humanos fazemos uns com os outros e com nós mesmos durante o ano? Quando a gente afunda a cabeça nos rejuntes acinzentados e arrastamos nossos músculos e neurônios para um trabalho puxado, quando ligamos o piloto automático e percorremos as trilhas que nos dizem que temos que viver. Essa vontade de fazer diferente esperando um elogio é um esforço formiguinha. Não passa muito da dedicação para construir seu próprio ninho. As formigas-humanas focam suas rainhas e buscam reconhecimento, um lugar ao sol. As formigas-rainhas são seu chefe, seus clientes e fornecedores, o maior salário, a gente suporta a busca e tudo que nela implica porque queremos chegar na casa confortável, na viagem desejada, no crescimento salutar da família, na felicidade que uma formiga, sequer, talvez nunca venha a experimentar.
“Fora dos desenhos animados, será que uma formiga é feliz?”, divagou a operária. O erro em que decorrem os humanos é o de querer fazer isso, sozinhos. A história da comunidade da formiga nós não seguimos muito não. Quanto mais intitulamos “comunidades”, menos as praticamos. Por isso, quem nunca se sentiu carregando o mundo nas costas? E nunca nem foi reconhecido por esse esforço hercúleo? - filosofou.

“Eu sou uma formiga”, sussurrou Henriqueta, coçando os olhos. Já de frente ao espelho, viu agora subindo as paredes, como que num retrovisor, a carreira de negras patas. Seria uma infestação ou uma forma sensível e matinal de perceber que todo esforço exige algum custo e que nem sempre você vai conseguir ver a formiga Rainha, ou se tornar uma. Aliás, Henriqueta desde então criou uma teoria: Há pessoas que nascem “formigas rainha”, outras, eternas operárias. Os seres humanos são mesmo assim? “Não seja tola, Henriqueta, são apenas formigas invadindo seu banheiro”.
Trilhou do banheiro ao quarto, vestiu-se e foi, sozinha em seu carro, para o labor que a inebriava. Ela queria crescer na vida. Lá na cozinha, no entorno do pote de açúcar, os pontos pretos buscavam uma forma de furar o bloqueio. Era uma questão de vida ou morte.
– 25 de janeiro de 2013, 19h01

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