terça-feira, 18 de dezembro de 2012

JORNALISMO LITERÁRIO: Aura para afastar os espinhos do estresse




Tem um espinho incomodando. Estará nas costas da blusa? Do sapato? Na perna esquerda? Na cabeça? Isso é estar estressada – no feminino, porque as mulheres, como eu, têm um ímã para puxar tarefas e dar conta de todas, porém, com algum custo. Ter muitas coisas a fazer gera falta de paciência, dores caminhando pelo corpo e explosões de sentimentos. O corpo dói, o metabolismo clama, o cérebro ferve. O estresse é silencioso. Pode esquecer que você vai perceber quando ele chegou e se instalou. Quando menos se der conta vai estar irritada, sentindo a face esquentar e respondendo a tudo rapidamente como uma forma de se defender. É a autodefesa para ainda mais atividades a serem cumpridas, mas se você já está dando tanto? O sangue, a vida, suas melhores ideias, o maior vigor de sua juventude, tudo para o trabalho, para o investimento no novo projeto, para a empresa em que você está ligada. Não é só isso. Você aceita porque, no fundo, a aposta é em você mesma.

Vem das cavernas
Pesquisando sobre estresse, aprendi que se caracteriza como “um mecanismo fisiológico do organismo sem o qual nós, nem os outros animais, teríamos sobrevivido. Se nosso antepassado das cavernas não reagisse imediatamente, ao se deparar com uma fera faminta, não teria deixado descendentes. Nós existimos porque nossos ancestrais se estressavam, isto é, liberavam uma série de mediadores químicos (o mais popular é a adrenalina), que provocavam reações fisiológicas para que, diante do perigo, enfrentassem a fera ou fugissem”, explica a médica psiquiatra Alexandrina Meleiro, que trabalha no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
A cada final de expediente você se arrasta para casa e procura um dos pequenos antídotos diários antiestresse: seu filho, sua casa, seu sofá, um livro, um filme, uma revista, uma música, seu hobbie, um carinho, sua cama. Mas o despertador logo toca. É outro dia. As forças vêm do além e você se levanta da cama para mais um dia de batalhas.
No suor ao longo do dia, tem como um flash a lembrança de sua casa e o cheirinho do seu lar com o calorzinho do abraço de seu filho e de seu amor invadindo seu corpo como um arauto. A mente se turbina e novas ideias nascem para concluir a tarefa da hora.

Mulher maravilha
Conceber um novo e grande projeto sobre estresse é cruzar a ponte enfrentando tempestades e se sentir uma super heroína, uma “mulher maravilha” ao final. Foi essa a sensação que tive quando concluímos o Caderno Especial 60 Anos de Pato Branco que você lê junto a esta edição. Três dias se debruçando, de intenso trabalho, totalmente concentrada na história de nossa cidade por, no mínimo, 12 horas por dia. Na matemática, 36 horas, de 72: só pensando em Pato Branco. Mais que isso, nos educadores e crianças que vão ler essas 32 páginas na escola e aprender muito sobre porque somos hoje assim, poderão projetar o futuro; em ter contribuído para eternizar uma parte da história pato-branquense, nesse suplemento tão bonito que me deu orgulho em editar. Agarrada à amiga de longa data e colega de mesa Marcilei Rossi, demos longas braçadas no mar de informações e pudemos entregar tudo nas mãos do meu querido Lucas Piaceski para aplicar a arte-final.
No jornal é assim – semelhante ao supermercado ou comércio. Uma seleção de palavras especiais que colhemos do jardim de nosso conhecimento durante todo o ano, mas do qual nascem espécies diferenciadas a cada fim de ano, porque cada produto (ou serviço) que se faz tem uma aura muito especial. Fim de ano o trabalho aumenta, estressa. Mas depois que a gráfica conclui a parte dela percebemos o quanto valeu a pena cada “esquentada de cabeça”.

Resiliência
Leio revistas sempre, assim como boa parte da população. É líquido e certo, as edições de final de ano trazem sempre reportagens sobre o assunto, o antídoto do estresse. Estamos todos acostumados em esperar aquela formula básica de ver sobre “paciência e resiliência”. Vem com a proposta de ser “fórmula mágica”, isso sim. “Preciosas lições para aumentar sua capacidade de se levantar e sacudir a poeira” está na Claudia de novembro, página 180. Durante o texto, outro psicanalista, o Jacob Pinheiro Goldberg, autor de O Direito no Divã (Saraiva) dá algumas lições sobre como se tornar mais resiliente e mais forte – quando a vida exigir.
Na física, a resiliência é a capacidade de certos corpos de retornar à forma original, após sofrer tensão e se deformar. Por empréstimo, é o nome que se dá à nossa capacidade de superar traumas e dores e resgatar o prazer pela vida. Quanto maior, mais chances teremos de não nos abater com os solavancos e os tombos.
As dicas trazidas no livro de Goldberg têm relação direta com o autoconhecimento: enxergar que o sofrimento e o cansaço também nos fortalece; perceber que a rotina é fundamental numa crise – e isso inclui encontrar os amigos, ir a festas e cumprir com suas tarefas do dia a dia; tentar sorrir, mesmo sem vontade e viver intensamente o luto e a tristeza, quando for o caso, pois é melhor curtir o nesse momento do que deixar a dor invadir as esferas da vida; adicionar arte à sua rotina; projetar o futuro; e se doar para melhorar a vida dos outros, pois essa generosidade vai melhorar a sua também.

Espinhos e flores entrelaçadas
Ao concluir as últimas linhas do dia, foi abrindo a porta do carro, em frente ao jornal, que percebi o quanto as costas ardiam. Olhei para o lado e vi uma árvore de espinhos entrelaçada com uma de hibiscos ostentando flores vermelho vivo se nutrindo da chuva que havia caído à tarde. Espinhos e flores entrelaçadas. “Se as flores são tão lindas, que triste a vida desses espinhos”, pensei. Mas reparando melhor, vi que a maior sombra era a da árvore de espinhos. Ela era que tinha protegido o carro o dia todo. Percebi que na vida também é assim. É preciso saber enxergar a fase mais nebulosa como uma oportunidade de fortalecimento. Era tarde. Voltei ao carro e peguei a câmera. Comecei a clicar espinhos. Esses que você vê na capa desta edição. Entre um ajuste e outro, um clique e outro, fui “desestressando” e ficando feliz por ter uma boa foto para mais uma edição. Afinal, outro dia estava pra nascer.



“Comecei a clicar espinhos. Esses que você vê na capa desta edição. Entre um ajuste e outro, um clique e outro, fui “desestressando” e ficando feliz por ter uma boa foto para mais uma edição. Afinal, outro dia estava pra nascer”.



O que o estresse faz no organismo

Pequenos problemas do dia a dia, em longo prazo, acabam criando uma situação de estresse. É fundamental estar alerta para os sinais que o corpo registra

- O estresse é uma defesa natural que nos ajuda a sobreviver, mas a cronicidade do estímulo estressante acarreta consequências danosas ao nosso organismo.
- Embora a tendência do indivíduo seja elaborar estratégias para resolvê-las, muitas vezes, ele vai se adaptando às exigências do chefe intransigente, à situação econômica difícil, aos revezes do dia a dia.
- Se não conseguir criar essas estratégias, seu organismo não irá reagir convenientemente diante dos problemas.
- Seu corpo dará sinais de cansaço que podem afetar os sistemas imunológico, endócrino, nervoso e o comportamento do dia a dia.
- A continuidade dessa situação afeta a pessoa, exaurindo suas forças e ela cai num estado de exaustão, de estresse propriamente dito.

- Caso não consiga reverter o processo, as consequências não tardarão a surgir:
- aumento da pressão arterial
- crises de angina que podem levar ao infarto
- dores musculares
- dores nas costas
- dores na região cervical
- alterações de pele


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Das linhas do jornal para as veias da educação

Os primeiros acordes anunciam que a voz de Norah Jones viria suave em seguida com "Young Blood". Assim toca meu despertador às 5h40 da manhã, todas as quartas e quintas-feiras, há quase três meses, nos quais venho cultivando uma relação muito saudável e de intenso aprendizado com crianças e adolescentes dos 11 aos 15 anos: são minhas turmas do 6º ao 9º ano, do Ensino Fundamental 1.  Tenho cinco turmas para chamar de “minha”. Quando me graduei em Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa, esse era o desejo mais intenso: poder dar a minha cara para as aulas, sendo professora regente – coisa que não se consegue como estagiária.
As aulas da manhã começam às 7h30, mas o detalhe é que leciono em Francisco Beltrão e, residindo em Pato Branco, tenho que sair de casa no máximo 6h20 da manhã, para viajar e lecionar com segurança. Não dá para negar que o madrugar seja um choque ao intelecto e, ao conciliar essa rotina com o exercício jornalístico, um desafio, pois a dedicação às matérias se intensificou como editora de suplementos do Diário do Sudoeste, casa onde estou há exatos sete anos e meio. Contudo, é um cenário muito compensador, pois a cada dia tenho a sensação de, em sala de aula ou na redação, colocar um tijolinho para melhorar o mundo.
Ser escritora era um desejo da adolescência: 13 anos. Foi nessa idade que as palavras me fisgaram de vez e comecei a guinar para a profissão de “jornalista”, já que lendo biografias, descobri que a maioria dos escritores trabalhava como tal, tendo papéis, linhas, tinta, divulgação de notícias e ensinamentos como instrumento de trabalho. Passados mais de dez anos eis que, como jornalista, percebi que incutia nas matérias o desejo de construir um mundo melhor, buscando formas e caminhos “educadamente” possíveis para isso. O exercício de jornalismo literário vive em mim quase como uma necessidade de alimentação do espírito. Então surgiu o curso de Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Após mais quatro anos e meio de estudos veio a graduação, o que me abriu as portas para começar a lecionar neste ano de 2012, no Colégio Águia de Francisco Beltrão.
É numa pasta rosa e branca com diversos compartimentos que acondiciono as dezenas de textos que os alunos produzem a cada quarta e quintas-feiras. Em casa, após fazer uma leitura minuciosa em cada linha, vem a sensação de satisfação ao ver nas folhas uma evolução em coerência, coesão e abordagem de tema que impulsiono em sala de aula.
Se fosse para dar uma geral no vício escolar da garotada de hoje, poderia arriscar dizer ser a pouca preocupação com a “caligrafia”. Na era da tecnologia e dos botões, o maior esforço de um professor talvez seja decifrar os hieróglifos que nascem das mãos de alguns alunos. Mas é inegável que essa Geração Y, para quem lecionamos, agora dispõe de uma riqueza de ideias e recursos que deixaria nossos textos escolares num estado perdedor em termos de comparação.
Como “professora-jornalista”, ensino produção textual e linguística (gramática) também. Como “jornalista-professora”, a experiência na educação vem nos últimos três anos junto aos editores-mirins do projeto Diarinho Cultural do Sudoeste do Paraná, alunos dos 4º e 5º anos da rede municipal de 13 municípios do Sudoeste.
Se a comunicação é um instrumento em comum entre professores e jornalistas, é inegável que essas áreas se conversam, por isso, acredito que essa ponte, por vezes um tanto desvairada, tem dado certo.
Mesmo sendo íntima das palavras, para quem ama a profissão é quase indefinível encontrar um termo que bem transporte a sensação de ser chamada de “professora”. Por isso é preciso fechar esse texto registrando algumas impressões desde o momento em que a coordenadora pedagógica Franciele me apresentou aos alunos. Caminhos que percorrem a técnica e a relação social.
Com o 6º ano, a palavra “respeito” teve que ser escrita no quadro por algumas aulas, mas hoje existe um acordo de cavalheiros de erguer a mão para falar e, no papel, soltar “o verbo” e a imaginação. Com os dois 7º anos, seara de criatividade, ganho surpresas positivas de produção a cada semana, onde a sincronização de conteúdos das turmas dá aos alunos iguais oportunidades de aprendizado, o que rendeu textos, vídeos, apresentações musicais e até de um teatro na Mostra de Talentos do Águia, no final desse mês de outubro. Com o 8º ano, é a união da turma e o carinho de uns para com os outros que dão a maior lição de convivência e de conhecimento. Meu pedido: “deem mais balões” para crescermos ainda mais em criatividade textual. E com o 9º ano, no alto de seus 13 e 14 anos, há um misto de personalidades caracterizado já com algumas aspirações de futuro. Não posso deixar de registrar uma experiência relâmpago como professora substituta dando uma primeira aula de quarta-feira para o segundão do Médio. Com a mesma característica estrutural do 9º ano – sala numerosa (leia-se 25 a 30 alunos), o professor fica num palco – vi nos rostos desses jovens a natural evolução das séries escolares, temperado com um interesse muito peculiar de participação. Quando o sinal bateu, saí da sala querendo extrair deles muito mais, a partir das sementes venho selecionando para plantar e compartilhar.
De folha em folha preenchida com “caligrafia”, é inegável que os dias em casa nunca mais foram os mesmos, pois os fins de semana são sempre povoados de textos para corrigir, intercalados com o plantão na redação do jornal. Se o trabalho não fosse minha vida, daria pra dizer que quase não sobra um bom tempo para viver.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

ENQUETE - O que você pensa sobre a nossa língua?





Na aula de Gramática com meus alunos do 6º ano enchemos o quadro com os conceitos pessoais de cada um desses pré-adolescentes sobre o que pensam sobre a língua. Saíram concepções bem interessantes!
São conceitos curtos que perpassam os dois usos que fazemos da língua: o idioma que ilustra nossa língua materna, bem como o órgão degustativo que articula os fonemas:

“A cada texto, rima ou palavra, há sempre algum mistério que a deixa mais divertida”
Isabella

“É difícil aprender tudo sobre a língua”
Gabriela

“Sem a língua a gente não poderia se comunicar”
Luís Eduardo

“Sem ela, não poderíamos sentir o sabor das coisas”
Eduardo

“Viveríamos num mundo solitário sem a língua”
Ana Valéria

“A língua é áspera e pegajosa”
João Guilherme

“Sem a língua não entenderíamos o que os outros têm a nos dizer”
Maria Heloisa

“É uma língua boa”
Lucas T.

“A língua é muito importante”
Ronald

“Sem a língua seria um silêncio. Ela é cheia de papilas degustativas”
Nicole

“A língua é chata”
Heitor

“Sem ela, teríamos apenas uma ideia sobre as coisas. É conversamos que saímos com duas opiniões”
Vitor

“A língua é cheia de sinais”
Lucas F.

“A língua tem cor”
João Olivo

“A língua é sempre divertida e sempre nos prega peças”
Ana Luiza

“A língua tem vida”
Iara

“A língua é doce e clara”
Luiz

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ela é o livro



“Barthes está errado. O autor não morreu e não morrerá nunca. O livro não é escrito por um fantasma, mas por um ser de carne e osso, fruto de sua vida pessoal, de um momento histórico definitivo”, defende a professora dra da UFSC que tem 22 livros publicados, cinco lançados ontem em Pato Branco



Daiana Pasquim

Pato Branco



Alma feroz. Para mim, Salma Ferraz sempre soou assim. Feroz não no sentido de selvagem, mas de extraordinário. Assim como aquele que apresentou a Língua Portuguesa ao mundo, Saramago, detém o “mago” e inventou a escrita “saramágica”, Salma descreve a “alma” e evidencia na literatura tudo que diz respeito a Deus e ao diabo. A mãe de minha professora do curso de Letras e Literaturas em Língua Portuguesa sabia o que estava fazendo quando lhe batizou, lá em Ibaiti, no norte velho do Paraná, ao lado de um pico, o chamado Pico Agudo que pertenceu à sua própria família no passado. Salma Ferraz nasceu há exato meio século ao pé do Pico Agudo, um lugar habitado por muitos fantasmas... pode ser daí que vem esse misticismo que rodeia sua imagem tão cintilante.

A primeira vez que a vi, foi numa aula por videoconferência e pensei: ela é uma bruxa. Toda de vermelho, dos pés a cabeça, porque o chapéu lhe é um elemento composto ao corpo quase como as mãos, logo acima dos cachos dourados que formam o invólucro para seu cérebro brilhante. Mãos essas que escrevem tão avidamente. Salma é autora de 17 livros de crítica literária e cinco de ficção. Nesta sexta-feira (10), trouxe três de crítica e dois de contos a Pato Branco, e os lançou na Galeria de Artes Maria Genoveva, concedendo muitos autógrafos. Mas ela não se envaidece. “Acho que nós [críticos literários] não somos tão importantes assim”, disse, apenas na segunda vez que repeti a pergunta.

A li principalmente durante as disciplinas de Literatura Portuguesa I e Estudos Literários III. Além de apenas dois, de seus 22 livros. Muito pouco ainda. Quero mais linhas. Quando a vi pessoalmente pela primeira vez tive um estalo: Salma tem um texto só. Ela é o livro, dentro de inúmeros intertextos. A vida de Salma é a literatura, a literatura é ela mesma.

Ao cultivar esse fascínio pela autora/professora/bruxa das palavras, guardava a vontade de fazer com ela essa entrevista perfil. E essas revelações que você lerá a seguir foram fruto de trocas de muitos e-mails, porque Salma reside em Florianópolis (SC), onde está a sede de minha universidade, a Federal de Santa Catarina (UFSC). Lá aonde as águas têm cristais, ela respira a inspiração de seu trabalho, também porque “existem sim bruxas na Ilha da Magia”, afirma Salma.

Mas antes de começarmos o pingue-pongue, é necessário passar mais duas informações: Salma Ferraz é a patronesse de nossa turma “17 guerreiras e um herói”, que receberá a outorga de grau a partir das 18h deste sábado (11) no Teatro Municipal Naura Rigon; e ela é perita em José Saramago, que ao morrer em 2010, teve de Salma um artigo publicado na revista Ler & Cia (Ed. 33), “O ano da morte de José Saramago – em 18 de julho de 2010, ninguém morreu”, aonde mencionava justamente que ao concluir o “Dicionário de Personagens”, cujo lançamento trouxe ao Sudoeste, o seu mestre morreu. Fazia dez anos que eles se conheciam pessoalmente. Ela o lê. Ele também a leu. Já dividiram taxi, tomaram café de duas horas e meia no hotel... hoje Salma mantém contato com a esposa do escritor português (foto).

Doutora em Literatura Portuguesa, ela é professora associada de Literatura Portuguesa da UFSC há exatos 17 anos, na qual dirige o Núcleo de estudos comparados entre Teologia e Literatura (Nutel), além de atuar na pós-graduação de Literatura com a linha de pesquisa “Teopoética - Os Estudos Comparados entre Teologia e Literatura”; e é membro da Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia (Alalite), da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic) e da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (Abraplip). “Foi um longo percurso. Daria um livro por si só. O que posso te dizer é que sou persistente, não desisto nunca de meus objetivos”.

O currículo resumido é grandioso, mas neste texto, com todo o respeito e admiração, a chamo de “você”, isso porque quando se leva um autor para a sua cabeceira, ele vira o seu íntimo. E sim, o autor está mais vivo do que nunca, numa contestação que juntas fazemos a Barthes e, se você chegar ao fim desta leitura, vai compreender:



Você leu Saramago muito profundamente e escreveu As Faces de Deus na Obra de um Ateu e fez o dicionário sobre os personagens dele. Sua relação com Saramago era de intensa troca?

A obra de Saramago sempre terá influência em minha ficção, uso epígrafes dele, citações. Minha relação com Saramago era de admiração, de discípula para o mestre. Eu o conheci quando ele recebeu o Doutoramento da Universidade Federal Fluminense no ano 2000. Eu o presentei com meu livro O Quinto Evangelista, ele ficou me olhando e comentou: "pensei que a senhorinha fosse mais velha". Naquela época eu era jovem.... Ficamos no mesmo hotel e no outro dia decidi não ir ao evento naquela manhã, pois estava muito cansada. Ocorre que Saramago também pensou o mesmo. E acredite quem apareceu para tomar café no refeitório vazio: ele! Conversamos umas duas horas e eu, que faço regime, comi tudo que podia para acompanhá-lo. Agora tenho trocado ideias com Pilar del Río sobre projetos na Fundação Saramago.



Você é uma grande escritora e uma professora amada... e quais eram seus sonhos de menina? Ser educadora sempre foi uma intenção?

Não, quando criança pensava em ser médica. Mas era de uma família muito humilde. Como gostava muito de ler, a literatura foi o caminho que escolhi. E creio que não seria uma boa médica. Detesto sangue e pessoas abertas...



Confesso que as primeiras impressões suas que tive foram: “ela é tão radiante, personalidade forte, presença marcante, parece até uma bruxa”. As bruxas existem aonde?

Existem. Principalmente aqui na Ilha da Magia. As bruxas, as que eram queimadas na Idade Média como tal, não eram bruxas, eram mulheres que detinham um conhecimento acima do normal, que conseguiam ver além dos outros. Só que este dom é dom dolorido. Quem consegue ver além da massa, sofre muito.



Nos conte um pouco sobre sua rotina diária de pesquisa, estudos, produção, criação de aulas?
Eu leio muito. Em torno de três a quatro horas por dias. Outra coisa: durmo muito. Oito horas por noite e mais uma hora e meia após o almoço. Quanto mais se dorme, mas se produz. Um cérebro descansado é uma máquina de fazer pensamento. À tarde costumo me dedicar às revistas e aos jornais, pela manhã estudo o que é mais pesado, os livros. A criação literária fica para fins de semana e final do ano. À noite vou à academia, pois sou muito agitada. Agora resolvi cursar Teologia...



Com mais de 20 obras publicadas, como consegue estabelecer uma produção tão intensa? Sua vida é só trabalho? Ou o trabalho é a sua vida?

Sim, foram 5 livros que saíram este ano. Como te disse minha produção depende da cama. Quanto mais durmo, mais produzo. Não sou autor de virar madrugadas lendo. Meu cérebro funciona diurnamente. Devo muito da minha produção ao energético Centrum. Sem ele não seria ninguém. Acho que vou virar garota propaganda do produto. O trabalho é minha vida. Digo sempre que por enquanto só temos esta vida, da outra ninguém voltou. Então temos que tirar o atraso e produzir muito. Não tenho tempo para futilidades. Só faço unha e cabelo quando a coisa tá feia mesma. E só vou ao salão na segunda de manhã, quando não tem ninguém. A burrice me dá coceira...



Literata especializada em Teopoética, o que mais te inspira a escrever e a publicar livros?

Divulgar o pouco que sei, sintetizar o pensamento de outros estudiosos e divulgá-los. São poucas as mentes brilhantes que fazem a história. Encanta-me conhecê-las. Gostaria de viver umas dez vidas de 90 anos para poder dar conta de ler tudo o que quero: Teologia, Literatura, Filosofia, etc, etc.



Em sua mais nova obra: “As malasartes de Lúcifer”, - o qual li a introdução de forma honrada ainda no prelo por sua gentileza em me enviar por e-mail no último dezembro- pressuponho dedicar-se a construir quase uma “redenção” ao diabo. A que atribui o fascínio e medo que as pessoas têm para com essa figura “divina”?

As pessoas tem medo, mas não do Diabo. No fundo, elas sabem que o Diabo é a apenas a exteriorização do seu próprio eu. O ser humano dispensa o Diabo, pois sabe fazer coisas que o Diabo jamais faria. É muito mais fácil atribuir as desgraças e fracassos a Deus ou ao Diabo com frases tipo “Deus quis assim”, ou “ tava endominhado”, do que pegar as rédeas da sua vida em suas mãos e dizer: acertei, errei, sou o responsável. É como se o ser humano precisasse ser tutelado pela Igreja, pelo Estado, por Deus e pelo Diabo. Um ser estúpido que não sabe o que faz e precisa jogas suas decisões nas costas de alguém.



Você já chamada pela mídia para explicar as mais intrigantes historias que mexeram com a sociedade, como a polêmica de “O Código Da Vinci”, quando foi ao Jô Soares. Como você se sente com tudo isso?

Orgulhosa, por ver que meus estudos estão sendo reconhecidos. E humilde e triste porque me falta ler muito ainda.



Afinal, Maria Madalena foi ou não a mulher de Jesus?
Não foi. E se tivesse sido não haveria escândalo algum. Escândalo na cultura judaica era ser solteiro. Não foi, porque pelos relatos dos evangelistas, a vida de Jesus foi muito curta e ele não teve tempo para isto. Se tivesse sido casado, os evangelistas relataiam isto com a mior tranquilidade. Madalena não foi a adúltera, não foi a mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus com óleo santo, nem tão pouco, a irmã de Marta e irmã de Lázaro. Madalena não tinha pertença, não pertencia a ninguém, era livre e, principalmente, a Discípula amada, a primeira testemunha da ressurreição. Como pode a Igreja Católica ainda não ordenar as mulheres diante de um fato contundente destes?



Como sua aluna, a impressão que me passa é a de que tanto conversando com vc, assistindo às suas aulas, quanto lendo suas obras, a gente “te lê”, o tempo todo. “Vc é o livro”, ambulante como seu livro Ateu. Como você recebe essa impressão?
O interessante é que já apontaram isto. Tem uma aluna na Universidade Estadual de Maringá que está fazendo um mestrado sobre minha obra literária. Ela veio até mim comprar um livro num lançamento, mas conversou um minuto e saiu correndo. Disse que não queria me conhecer. Como ela está estudando minha obra, fazendo uma dissertação. Ela está certa, tem que se manter longe do objeto de pesquisa. Porque quem me conhece quando lê meus contos, parece que está me ouvindo falar. Talvez porque eu aproveite muitas das estórias da minha vida para utilizar na ficcão. Embora o que está no papel seja diferente da estória que a motivou, porque se trata de ficção e de personagens de papel, parece que eu sou o livro. Outra coisa: eu cito muito as obras que trabalho na crítica na minha ficção.



Quais são os melhores escritores de todos os tempos?

Difícil, muito difícil. Há grandes obras e grandes autores (alguns desconhecidos) e qualquer lista é excludente, subjetiva e, por isto, inválida. Mas, correndo o risco de errar, creio que nenhum estudante poderia se formar sem ter lido: 1) A Divina Comédia, 2) Dom Quixote em 3) a Bíblia, porque é a base da civilização ocidental.



Aprendemos na licenciatura em Letras e Literaturas sobre a morte do autor. Quem leu a dedicatória de seu “O ateu ambulante (2011)”, e o conto homônimo, percebe que os “Ricardos” tendem a ser a mesma pessoa, seu tio. Contei-lhe numa mensagem online logo após ler a obra, de que ficava difícil matar o autor diante da riqueza de detalhes narradas em 1ª pessoa. Vc era a sobrinha. Como Barthes leria seu primeiro capítulo?

Não, Barthes está errado. O autor não morreu e não morrerá nunca. O livro não é escrito por um fantasma, mas por um ser de carne e osso, fruto de sua vida pessoal, de um momento histórico definitivo. Flaubert usou a expressão "Emma Bovary c'est moi". Saramago, e isto eu coloco na Introdução do meu Dicionário de Personagens da Obra de José Saramago, que lançarei nesta sexta também era contra o conceito de Barthes, ao afirmar que ele era Blimunda, Baltasar, Madalena, Jesus e o Diabo. Também digo que sou Ricardo do Ateu Ambulante, sou a Filha de O Capote de A Ceia dos Mortos, como sou a mulher que odeia as Bundas sem cérebro em Efeito Melancia de Nem Sempre Amar é tudo.



Como devemos “conversar” com as teorias literárias para que nos tornem pessoas melhores?
Antes das teorias, vc deve ler o livro. O livro do autor sempre será superior a qualquer teoria. A teoria ilumina o livro, nunca o contrário! Diante da opção única, o livro, o crítico, fique com o livro.



Ao concluir a entrevista, tive a redenção. Também sempre achei que o Barthes estivesse errado. Estudamos isso em três cadeiras. O artigo sempre voltava... Ter essa afirmação de Salma foi uma libertação. O autor está mais vivo do que nunca. E Saramago também concordaria.

domingo, 15 de julho de 2012

"Revisitando" o espelho do meu quarto


Uma janela que abria para um mundo de possibilidades. Eu morava próxima a um bosque, ao lado de um terreno com muitas árvores. No meu quintal havia um bosque, aonde eu conversava com as árvores. 13 anos. Era a idade que eu tinha quando me mudei para aquela casa de alvenaria branca com janelas de alumínio Sasazaki. Dali daquela moldura comecei a ver o mundo. O verde, o canto dos pássaros, tudo entrava no meu quarto de adolescente. Tintas, papel, a velha máquina de escrever Olivetti de segunda mão, as cópias de minhas lições de datilografia, meus cartazes de Jornada Jovem... ah, isso era muito legal. Cada gaveta que eu abria descobria a surpresa de um papelzinho com uma bela frase que os meus amigos haviam escondido para eu encontrar justamente no momento mais inesperado. Tinha sempre aquele cheirinho inigualável da amizade carinhosa da adolescência, quando parece que a vida consegue ter um gosto por ora tão eterno, por outros tão efêmero. Nesses cruzamentos da vida, tinha cartazes com figuras lindas, uma frase que a Miriam fez pra mim: “não corra atrás das borboletas, plante flores que elas virão até você”. E quando o frio, o calor, o sol, o tempo foi apagando as letras da Miriam, eu gostava tanto do cartaz azul com a figura de um buque de flores colado que peguei um pincel atômico e passei a minha caligrafia sobre a da Miriam, porque eu não queria apagar nunca aquela frase do meu campo de visão. Até hoje não me lembro quando deixei as borboletas para trás. Ah, mas a coisa mais importante pra eu contar é sobre o meu espelho. Ah... espelho, espelho meu... que visão de mim você dá hoje? Aquele meu cúmplice que me acompanhava nos momentos em que eu estava linda, e nos que estava ridícula. Aquele que acompanhava todos os meus passos de dança, feitos de meia no chão sintecado que eu tanto encerava porque minha mãe gostava do chão bem brilhoso. E primeiro eu encerava e nesse momento conhecia cada veio da madeira que pintava o chão do meu quarto. Um contraste tão lindo com as paredes e o teto brancos. A parte de cima foi envernizada até o dia em que meu pai transformou tudo com um rolo e uma lata de tinta branco gelo em um ambiente bem mais iluminado. Mas sempre gostei muito de madeira e nessa época eu tinha uma mesa de madeira maciça, construída pelo meu bisavó paterno, encostada em uma das paredes de meu quarto. Ali eu criava as mais incríveis coisas. Abria minha caixa de tintas - magenta, amarelo ocre, verde musgo, vinho, verde oliva, azul celeste, roxo, vermelho escarlate – que morava bem ali em cima da mesa feita pelo meu bisavô, e escolhia as cores para a arte da tarde. Era camiseta, cartaz, um simples papel, muitos panos de prato, algumas fraldas. Ursinho, frutas, flores. Meu quarto tinha cheiro de tudo, tudo que me revelava. Da tinta, ao suor da dança, ao cheirinho gostoso da limpeza recém feita e da madeira hidratada com a cera. Eu já falei que o meu espelho ficava no centro do guarda-roupa? Isso foi no começo, porque logo que eu comecei a trabalhar, a primeira coisa que fiz foi substituir o velho guarda-roupa prensado por um bem bonito. Custou R$ 279 e tinha dois espelhos, um em cada porta central, do lado de fora. Eu me via bem melhor. Passei a dançar mais. Calça bailarina, camisetas, blusinhas curtas, abdominais, espelho, pinceladas, espelho. Ai que vício. Um dia na escola, a professora da 8ª série deu para lermos um texto descritivo que tratava de um circulo vicioso. Acho até que esse era o título, porque a cada três coisas que o personagem fazia, uma era cigarro e fósforo. Daí me dei conta que meu vício era espelho. Todas as noites ele me ilustrava os bobs pra acordar com o cabelo bonito da manha da escola. Anos mais tarde, estudando psicologia da comunicação, descobri que dá-se a isso o nome de narcisismo. Larguei um pouco os espelhos, porque não gosto de perder o foco da vida, mas só um pouco, porque me dei conta que pra eu achar meu eixo tenho que me olhar no espelho. Minha cama era de casal e recebia sempre as visitas de meu irmão caçula Victor à noite. Ele adorava dormir comigo e sentiu muito quando eu deixei a casa dos meus pais para me mudar com mais duas amigas para um apartamento no centro de Pato Branco que ia ser meu QG para estudar jornalismo.
Antes de cair na cama eu tinha que ter dito que o meu guarda-roupa é a minha caixa de pandora. Lá estavam meus tesouros. As roupas que procurava gostar de usar, apesar de nunca poder ter acesso às modinhas de verdade. Eram muito caras. Mas minhas roupas eram bonitas. Até, vejam só, tenho algumas peças dessa época ainda, e que ainda me servem. As costuradas pela dona Zilda. Que insistência em usar ainda, mas só se ficar bonita. Diferente dessa frase repetitiva que fiz. Na adolescência eu chamaria isso de “ridículo”, um dos sentimentos mais recorrentes entre as paredes branco-gelo de meu quarto. E eram limpas contrastando com a chuva de pensamentos que me assolava. De contornos, os cartazes da Miriam. Mas no meu guarda-roupa tinha também meu porta-jóias. Meus lindos brincos, anéis, colares. Passei quase minha vida toda com alguma correntinha no pescoço e anéis nos dedos. Faz anos que ela é de ouro, e faz três anos que tem um pingente de um menininho de boné contornando meu colo e aquecendo meu coração. Mas minhas jóias de adolescência eram bijouteria, só tinham valor sentimental. Muitas compradas em praia, que na metade do ano já estavam bem feias. Ah, passava o ano esperando as férias dos meus pais, para viajar com eles e meus irmãos pra praia. Então, na minha caixa de pandora tinha também meus biquínis. Antes de me mudar para esse quarto que tinha janela para o bosque, morávamos numa cidade em que nossa casa ficava em frente a um clube de piscina. Vivia preta. Melanina ativada. Tinha algumas roupas de banho que ocuparam ali, algumas das gavetas, numa posição mais aposentada durante todo o ano. Meu guarda-roupa tinha três gavetas grandes, logo atrás do espelho. A arara tinha casacos, vestidos, saias. Nas outras quatro portas não haviam espelhos, mas tinha calceiro. Eu achava isso muito legal, porque no guarda-roupa prensado não tinha lugar para pendurar as calças de forma tão simétrica. Ah, o prensado tinha penteadeira no meio. Na caixa de pandora com espelhos na porta, do lado de fora, eu tinha que fazer minha penteadeira nas prateleiras internas. Então, meu guarda-roupa tinha aquele cheirinho bom de perfume de moça, hidratante para o corpo e sabonete gostoso. Ah, eu me sentia tão bem abrindo aquelas portas. Ele era o dono de uma das paredes.
Nossa, descrever meu quarto é uma tarefa meio cansativa. Na outra parede, ao lado da mesa do meu bisavô que abrigava a caixa de tintas - e velha Olivetti que vez em sempre ocupava o centro da mesa, das lições de datilografia ao meu primeiro romance escrito – tinha uma estante de aço, singelamente pintada de azul bebe que abrigava todos os meus livros, cadernos, revistas Claudia, badulaques e tranqueiras dessa fase tão bagunçada da vida. Na primeira prateleira de baixo ficavam os calçados. Depois vinham as revistas que comecei devorar muito cedo, e uma sequencia de enfeites mimosos.
Sempre quero voltar pra cama. Ao lado dela, um criado mudo que abrigava o meu som, batizado na época de minisystem. Aprendi a fazer mágica e me beneficiar das palavras logo cedo. Transformei a caderneta ganha de R$ 150, meu texto publicado no jornal Novo Horizonte “Mãe, a vida dá vida” e os mais R$ 90 interados por meu bondoso pai em um aparelho de som. Empilhados abaixo dele estavam todos os meus poucos CDs – que estavam começando a surgir. Mas uma infinidade de fitas k7. Tinha uma sempre no ponto para eu gravar as músicas da hora que tocavam na Movimento FM. Largava a cera, o balde, a vassoura, a massa de pão, o que fosse, para correr apertar “rec”. Aos 15 anos, já tinha uma playlist interessante.
Mas sabe qual é a parte mais importante do meu quarto? É uma que permanece comigo até hoje: a essência da minha alma. Hoje enxergo com clareza tudo que parecia bagunçado e nebuloso dentro da moldura do bosque. Apesar de virginiana, sempre guardei muitos badulaques. É caixa, dentro de caixa, para guardar outra caixa. Coloridas, bonitas, diversos compartimentos, enfeitadas, com adesivos. Meticulosamente tudo separado, as vezes misturado. Caixas pra arrumação, caixas pra bagunça, caixa pra sapatos, caixa pra cintos e meias, caixa pra contas a pagar, para as cartas, bilhetes e marcas do namoro. Meu namoro com a vida, com a paixão de estar viva, com meus tesouros íntimos, esse namoro em si mesma, narcisista, apoiada na representação do real para não perder o norte. Me ver faz bem. 

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