quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ecos resplandecentes das vozes femininas






Daiana Pasquim
No reflexo no espelho não temos só duas mulheres com perfis diferentes. Temos uma representação da literatura brasileira contemporânea, aonde a escrita feminina ganha cada vez mais espaço, embora não se possa fazer da literatura um lugar para a divisão de gêneros. Mas elas têm muito em comum. A catarinense, roteirista de TV e escritora Adriana Lunardi e a gaúcha escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária Cíntia Moscovich começaram a carreira literária juntas, com livros de contos. Esta, com “Reino das Cebolas” e aquela com “As meninas da Torre Helsinque” impulsionados em 1996 por um financiamento da Prefeitura de Porto Alegre (RS), o Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproart).
Ouvindo o percurso como escritora que cada uma delas trilhou, não parece simplório perceber que para conseguir crescer e ser reconhecida como uma profissional da escrita deve-se mesmo buscar bolsas para escritores, financiamentos artísticos e culturais e projetos literários. Fato, é que ambas hoje são dois nomes que ecoam na literatura brasileira contemporânea, como mulheres que sucederam a ruptura do Modernismo somado a Raquel de Queiroz, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles – nomes isolados até 1960 – serem bastante boas para referendar hoje esse lançar de novos olhares sobre o fazer ficção. Na última quarta-feira (17), Adriana e Cíntia foram as estrelas do “Vozes femininas”, dentro do ciclo de “Autores & Ideias”, recebido pelo Sesc Pato Branco. Antes mesmo de se abrir essa janela para o encontro entre o autor e o seu público, fomos conversar com ambas no Hotel Loriza, aonde estavam hospedadas. Uma conversa agradabilíssima revelou as nuances aguerridas para se tornar uma escritora: estudo, pesquisa na área, determinação, autocrítica como um crivo inicial, uma boa dose de talento e sim, sorte.
“A gente precisa de sorte também. Esse é o elemento. Eu sei que eu tenho vocação para a escrita. Algum talento devo ter, embora duvide quase sempre do tamanho dele, mas acho que isso tudo, mais o trabalho duro que tem que ser feito, se pode ter e fazer tudo, mas também tem que contar com a sorte. Eu não posso me negar a admitir que eu tive muita sorte”, menciona Adriana Lunardi. O seu pé de coelho foi estar no lugar certo. Com a mudança para o Rio de Janeiro, em 1999, ela se inscreveu e recebeu a bolsa para escritores da Fundação Biblioteca Nacional e foi indicada ao prêmio Jabuti com o livro de contos “Vésperas” - uma homenagem a grandes escritoras, transformadas em personagens e retratadas na sua solidão, ambiguidades, paixões e angústias. A idéia de morte, sob diferentes focos, perpassa o livro, escrito como uma prosa poética. São nove histórias, cada uma delas envolve uma personalidade da literatura: Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa. Adriana Lunardi valeu-se de detalhes biográficos dessas mulheres, combinou-os com a sua ficção e, nos contos sobre Woolf, Parker, Colette, Mansfield e da Costa, intui e descreve os últimos dias e momentos de suas vidas.
“É um prêmio para escritores que estão com obras em andamento. Apresentei cinco contos, descrevi qual seria o projeto e ganhei essa bolsa para terminar a escritura do livro. Aí tive a sorte de poder chegar a uma editora de porte nacional, como a Rocco, com um original premiado, o que me abriu as portas da editora. Eu cheguei com a bolsa nacional que tem muito prestigio, por ser um dos poucos prêmios dados pela Biblioteca Nacional. Consegui publicar por uma grande editora e esse foi um livro que veio no momento certo de ter sido escrito e publicado”. Em sua predileção, Adriana é muito leitora da Katherine Mansfield, Virginia Woolf e Clarice Lispector. “São as minhas queridas”.

O mistério do conto
A jornalista e mestre em Teoria Literária, Cíntia Moscovich diz ter se saturado da redação, deixando há cinco anos de ser a editora de livros Zero Hora. Hoje ela está vinculada a Editora Record, do Rio de Janeiro, para a qual está escrevendo o livro de contos “Essa coisa brilhante que é a chuva”, impulsionada pela bolsa de criação literária que ganhou da Petrobrás. Seu projeto de lançamento atrasou em função de um câncer e ela reclama um pouco da promiscuidade de escrever em casa, aonde a vida doméstica se (com)funde com a profissional. Apesar do benefício de estar em seu lar, tem que combater os ruídos infantis de uma creche instalada ao lado de sua casa, escrevendo bem mais nas madrugadas, apesar de confessar produzir melhor à tarde.
Cíntia é daquelas que estampa uma autocrítica ferrenha, o que, teoricamente, se faz uma rocha para receber os desgostos alheios, não que precise. “Fiz muitos contos, alguns que nunca publiquei, mas devo ter feito uns 50 contos, o que não é grande ciosa. E não bastasse não ser grande coisa esse numero, não sei de qual eu gosto mais, mas sei que eu não gosto de uns 20 desses que nunca publiquei. Cada um tem um problema. Na maioria das vezes, acho que eles estão muito óbvios, tendendo ao lugar comum, tendendo a pegadas “sentimentaloides”, com sentimentalismo meio desnecessário. Em grande parte deles, eu sei que escrevi demais, só que não estou vendo ainda aonde cortar. Então, esses são motivos suficientes para que eu não goste deles. Escrevi demais e não sei aonde cortar? Não está bom”, determina.
Nessa finesse, Cintia talvez seja a pessoa certa para revelar qual é o mistério do conto? “O mistério do conto é o próprio mistério da literatura, mas elevado a uma potência muito maior. O segredo do conto é contar uma história de forma não evidente e não óbvia, ocultando algumas partes, mas levando o seu leitor a entender o que está oculto, com base naquilo que está aparente. Será que dá para entender? Esse jogo de ocultamento é o grande lance do conto e a grande dificuldade de autores que iniciam, para poder entender a medida do que se vai ocultar e o que se vai deixar aparente no que se está contando”, teoriza.
Sem qualquer hesitação, afirma que a escrita feminina não pode ser identificável. “A concepção de literatura não engloba a questão de gênero, o sexo e gênero da pessoa é uma questão extraliterária. Não está incluído. A literatura é uma questão estética. Não há uma questão de gênero. (...) Considerar que existe uma literatura feminina é estar reduzindo o próprio papel da literatura, o conceito que temos sobre ela”.
E com a praticidade gaúcha, é realista ao detalhar não ser uma fácil missão viver da escrita. “Para se trabalhar como escritor há de se ter outros trabalhos. Dou aula de criação literária, tenho uma oficina na minha casa, viajo pelo interior dando aulas. Venho para o Paraná pelo SESC para falar com as pessoas sobre literatura, escrevo para jornal, revista, escrevo orelhas de livros, resenha. Tem um varejo que a gente tem que atender para poder viver de literatura”. Assim, ela conclui seu ensaio dando as glórias ao que chama de “Tio Sesc” como um precursor e incentivador da literatura contemporânea. “O Sesc é genial. Eu tenho ido a lugares bem remotos. O dia que a gente for contar a história da cultura no Brasil tem que ter o nome do SESC. Ele chega a lugares aonde nenhum ministério, nenhuma secretaria de nenhuma cultura chega. E o SESC propicia isso. Essa visibilidade das escritoras contemporâneas também”.

Legenda
As escritoras Adriana Lunardi e Cíntia Moscovich percorreram o Paraná com sete encontros pelo “Autores & Ideias” do Sesc



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